97,5%: a Importância da Saúde do Oceano Para a Saúde das Pessoas

Essa é a 1ª parte da série 97,5%: oceano, clima e saúde coletiva, no qual nos propomos a abordar a Década da Restauração Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, aproximando nossos leitores do oceano, espaço que conhecemos tão pouco e que, apesar de estar distante do imaginário coletivo, é essencial para a saúde de todas as pessoas.

Em 2017, a ONU definiu os anos de 2021 a 2030 como a “Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”. A partir daí, passamos a olhar para um espaço que conhecemos tão pouco – menos do que a superfície da lua – mas que influencia nosso dia a dia diretamente, seja através do regime de chuvas, da absorção de carbono e produção de oxigênio ou do controle da temperatura da Terra.

Falar dos oceanos é imprescindível quando falamos sobre crise climática. As ações humanas em geral, e do homem em particular, têm alterado todos os ecossistemas, a vida marinha diretamente, causando fenômenos como acidificação, diminuição de oxigênio e morte massiva de corais. E, como toda intervenção sobre o meio ambiente tem efeito bumerangue, as consequências das intervenções aparecem, mesmo anos depois, e atingem de forma desproporcional a sociedade.

Os oceanos são muito mais sensíveis do que a terra ao aumento da temperatura provocada pelo aquecimento global. Esse artigo acadêmico expõe que, desde o início da Revolução Industrial, há 260 anos, os oceanos absorveram cerca de 30 a 40% do dióxido de carbono e 93% do calor adicionado à atmosfera pela atividade humana. Já em 2020, eles atingiram seu nível mais quente já registrado na história – e esse recorde tem sido batido anualmente, desde 2015.

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A análise feita pelos cientistas utilizou dados sobre a temperatura oceânica em até dois mil metros de profundidade, em regiões em que a luz já não penetra mais e os animais começam a ter luz própria. Para dimensionar a descoberta: é como se cada ser humano da Terra operasse oitenta secadores de cabelo todos os dias ou se detonássemos cerca de quatro bombas nucleares por segundo. E o que isso significa para nós?

Oceanos mais quentes e desregulados significam mais tempestades fortes e com maior frequência. Significam, também, áreas mais úmidas, mais inundações e, simultaneamente, mais secas e ondas de calor intenso com incêndios florestais em outras regiões. Os incêndios florestais da Austrália, em 2020, são um exemplo disso. A alteração de temperatura em uma corrente conhecida como “El Niño” do Oceano Índico inverteu o quadro natural esperado para a Austrália e o Sudeste Africano. Logo, ao invés da chuva chegar na Austrália e o tempo de seca chegar no continente Africano, o inverso aconteceu e diversos países africanos sofreram com inundações e a Austrália, com as queimadas.

Já um outro artigo afirma que as alterações nos oceanos estão sendo profundas, rápidas e estão passando despercebidas. O estudo destaca ainda que tais alterações são potencialmente irreversíveis. Existem dois pontos de atenção nessa conversa: primeiro, o aquecimento das águas que, além dos impactos sociais, também representa um perigo à vida de diversos animais marinhos.

Assim como os humanos, no mar, cada espécie possui uma faixa de temperatura aceitável para seu funcionamento fisiológico e a maioria dos organismos marinhos são vulneráveis ao aquecimento acima da sua temperatura ideal. Sem a adaptação, diversas espécies são duramente atingidas, como é o caso dos corais – cujas mudanças são visualmente perceptíveis pela transformação das suas cores para o branco.

O segundo ponto de atenção é para a acidificação da água do mar, fruto da absorção do CO2. Muitos organismos marinhos, como os pterópodes – caracóis e lesmas marinhas – têm conchas ou estruturas esqueléticas feitas de minerais vulneráveis à acidificação dos oceanos. Eles vivem a até 10 metros de profundidade e são uma espécie-chave na teia alimentar marinha.

O estudo também aponta que o nível de acidificação atual é o maior observado nos últimos 65 milhões de anos e tende a se agravar, se arrastando por muitos séculos, mesmo que nós consigamos reduzir as emissões de carbono para zero. Isso acontece porque as águas da parte superior do oceano se misturam em uma escala de tempo de décadas, mas as massas de água mais profundas possuem um tempo muito mais longo, chegando a centenas e milhares de anos.

Nas águas superficiais se concentra o excesso de calor. Mas lentamente as águas superficiais se misturam com as águas profundas. Quando essas águas superficiais alteradas são “levadas” para o fundo do oceano, as alterações no ecossistema podem ser extremamente duradouras. Adiciona-se à equação o fato que monitorar esses impactos nas águas profundas é complexo. Soma-se a esses fatos outros impactos, como a sobrepesca, o escoamento de nutrientes da terra – como da agricultura e resíduos domésticos, que aumentam a produtividade biológica nas áreas costeiras, perturbando ecossistemas e intensificando a desoxigenação.

O propósito dessa série não é trazer uma sensação de Solastalgia [1]para nossos leitores, mas sim explorar não só a atual situação e impactos já percebidos e projetados para o futuro, como também pontos de solução, ações e mitigações. Retornando ao último estudo citado, os pesquisadores listam três saídas: utilizar modelos e observações para determinar com maior precisão onde os perigos graves ocorreram, onde estão ocorrendo e onde poderão ocorrer.

Em segundo lugar, cientistas tentam entender os limites da tolerância dessas perturbações, como mudança da temperatura e diminuição de oxigênio de diversos organismos-chaves para a biodiversidade. Esse ponto é importante para que haja uma mudança global sobre as métricas analisadas sobre as alterações na vida marinha, para além do CO2 concentrado na atmosfera. Por fim, o estudo cita o fortalecimento da comunicação, pois ainda há muito o que se fazer para construir uma alfabetização climática e oceânica na sociedade. De nossa parte, gostaríamos de adicionar um quarto item: a responsabilidade do Estado de fiscalizar, gerir leis e criar novas para que às de proteção ambiental sejam delimitadas e respeitadas, para que o turismo e caça não sejam predatórios e para que as empresas sejam responsáveis pelos resíduos do seu processo produtivo.

A saída nas ações coletivas e ativismo ambiental

Diante de tanta inércia governamental e números e projeções tão assustadores, a primeira impressão deve ser de que ninguém está fazendo nada. Mas isso não é verdade. Segundo a análise de termos mais buscados no Google no ano passado, termos como “aumento do nível do mar”, “desmatamento”, “gases do efeito estufa” e “incêndios florestais” tiveram alta adesão. A plataforma afirma que “2020 foi o ano que mais pesquisamos como impedir as mudanças climáticas”. “O interesse cresceu muito”, afirma Paulina Chamorro, jornalista, apresentadora e consultora de comunicação em sustentabilidade, “questões ambientais atuais têm feito as pessoas buscarem mais sobre meio ambiente”.

Uma forma de levar o conhecimento ambiental para além da bolha acadêmica é trabalhar conteúdos multimídias, como Paulina fez com a série de reportagens Mulheres na Conservação, em 2020. Para além das reportagens online, existem um conjunto de imagens, vídeos e podcast que contam histórias de mulheres pesquisadoras brasileiras. “Metade da produção científica no país é assinada por mulheres, é um dos maiores índices do mundo. Nosso interesse era em fazer juz ao trabalho delas. A gente não vê isso na comunicação e se as pessoas não estão vendo, elas vão ter no imaginário que isso é ‘trampo’ de homem, sabe?”, explica Paulina.

Foi com essa mesma percepção que a jornalista criou, em 2019, junto da pesquisadora Leandra Gonçalves e da artista visual Bárbara Veiga, a Liga das Mulheres pelo Oceano. A ideia do movimento, que hoje conta com mais de 2.300 integrantes, é fazer uma conexão oceano-ensino, trazer para a percepção da sociedade os ativistas que estão no centro de transformações. “É a mesma lógica das ‘Mulheres na Conservação’, mulheres incríveis que são protagonistas de ativismo pelo oceano mas que não tem visibilidade”, explica, “a gente precisa se apoiar uma na outra para se sentir mais forte, ser protagonista de verdade. Foi com esse sentimento que nasceu a Liga”.

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Desde 2019, o movimento produziu uma série de cartas técnicas, trabalhando por meio do advocacy em questões decisivas como o ativismo contra a exploração de petróleo na região de Abrolhos e no derramamento de petróleo no Nordeste, em 2019. “O ativismo da Liga é muito ‘vem cá, deixa eu te explicar porque isso é um absurdo, vamos conversar, vamos dialogar?’”, reforça.

O ativismo ambiental também parte da escolha individual de levar adiante o conhecimento adquirido e alertar para os impactos já visíveis na Natureza. É assim que Maysa Santoro, bióloga e ativista, descreve seu início nessa jornada de divulgação de informações ambientais tanto via Instagram quanto por meio de aulas em escolas. “Quando a gente viaja e entra no meio ambiente, a gente tem essa experiência para além dos dados, consegue palpar. Entrar num mangue e ver um caranguejo emaranhado em plástico, a quantidade de animais mortos na estrada”, exemplifica, “mesmo em lugares que são referência para a conservação, os animais são impactados”.

Em suas viagens, Maysa chama a atenção dos seguidores pelas fotos profissionais e conta que também passou a compartilhar tudo que estava vendo de ruim no local. “Eu já tinha acesso à informação, mas quando a gente vê pessoalmente isso traz pra gente um senso de urgência. Por isso, eu comecei a trabalhar com educação ambiental para todas as idades”, explica.

Para Maysa, o ativismo ambiental é urgente, ele precisa acontecer – e precisa acontecer de diversas formas, com diversas estratégias. Ela salienta não só o ativismo clássico, de ir para as ruas com cartazes, mas também o de passar informações para quem está perto, como familiares. “As pessoas recebem essas informações com muito susto. Eu ainda falo com pessoas que não fazem ideia da dimensão dos nossos impactos no meio ambiente”, afirma, “é um choque misturado com ‘eu preciso fazer alguma coisa’”.

O atual momento, do início da Década da Ciência Oceânica, é perfeito para que essas ações ganhem mais visibilidade na sociedade. “Quando a gente nomeia a década como sendo do oceano, trazemos visibilidade para o assunto. É muito importante, porque faz a pessoa travar contato de forma mais rápida e mais curta com a informação”, explica. Quando perguntarem “poxa, mais porquê a década dos oceanos?”, dessa vez podemos responder “porque eles estão ligados com o ar que respiramos, com a temperatura que sentimos, com a chuva que nutre nossas árvores, plantações e alimentos”, e muito mais, incluindo praias e momentos de lazer.

Nas próximas matérias da série 97,5%: oceano, clima e saúde coletiva abordaremos os fenômenos de aquecimento e acidificação dos oceanos; a importância dos corais; as condições da poluição humana no mar do estado de São Paulo, como o capitalismo verde age no oceano, as alterações na vida de mulheres ribeirinhas frente à poluição oceânica e possibilidades e oportunidades do turismo ecológico.

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