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Crise Climática é Sujeito Oculto na Cobertura de Eventos Climáticos Extremos

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  • Juliana Aguilera
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Victória Lobo

9 min. tempo de leitura
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Embora as pessoas estejam cada vez mais cientes das alterações climáticas em fluxo, o jornalismo de grande alcance deixa a questão na gaveta ao cobrir desastres (nem tão) naturais. Excluir o papel do aquecimento global em acontecimentos como as fortes chuvas recentes na Bahia e em Minas Gerais esconde a urgência de se criar e colocar em prática planos de contenção e mitigação dos eventos extremos. No entanto, não é possível colocar toda a responsabilidade numa fúria climática incontrolável.

Em dezembro do ano passado começamos a ouvir sobre as fortes chuvas que tomaram mais de 164 cidades na Bahia, posteriormente alcançando mais de 200 cidades em Minas Gerais. Os danos ainda estão sendo contabilizados, mas, por ora, o saldo é esse: mais de 40 mil desabrigados e desalojados e 25 mortos em Minas Gerais, e 850 mil atingidos e 26 mortes na Bahia. Outros números destacados pela mídia são os investimentos dos estados e do governo, que somam mais de R$ 600 milhões.

Segundo dados da NASA e do departamento americano de Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), 2021 foi o 6º ano mais quente já registrado desde o início da medição histórica, em 1880. O valor empata com o de 2018 e 2022 tende a seguir o padrão. Já a doutoranda em climatologia Karina Lima destaca que os dados da ferramenta Berkeley Earth apontam para um aquecimento de 1.6ºC do Brasil em 2020, valor à frente da média global. O país caminha para 3.9ºC em 2100 e, pelas projeções, só deve chegar ao carbono zero em 2366. 

O valor de 1.6ºC pode parecer pequeno, mas a NASA compara com o corpo humano. Se aumentarmos a temperatura humana em 1ºC, ela já pode ser considerada febre. “5ºC vai desembarcar você no hospital”, explica a agência, “mesmo um aumento de 1ºC em nosso planeta tem consequências graves”. “Devido ao grau de urgência em que nos encontramos, é imprescindível que a crise climática seja pauta não só quando um evento extremo acontece, mas o tempo todo”, afirma Karina. 

Mas, então, podemos assegurar que as fortes chuvas de dezembro e janeiro, o ciclone subtropical atípico em meados de dezembro e a recente onda de calor que atingiu o Rio Grande do Sul foram todos causados pela crise climática? Bem, a equação para responder a questão é um pouco mais complexa. 

Primeiro, os componentes

Muita gente clamou por “não olhe para cima” quando as fortes chuvas bateram na Bahia, no final de dezembro – em uma referência ao filme que traz uma alegoria ao negacionismo climático. É importante notar que os fatores que causaram tais eventos são comuns – e foram previstos, segundo Carolina Gramcianinov, pós-doutoranda do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). “Olhando isoladamente, as chuvas na Bahia e Minas Gerais neste ano estão relacionadas a condições atmosféricas típicas da estação”, explica, “para ‘agravar’ a situação, estamos sob influência da La Niña, que favorece chuva na porção mais nordeste do país. As previsões sazonais dos centros de pesquisa já diziam isso”.  

Karina complementa que as Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que são um dos principais responsáveis pela reposição hídrica de parte do Brasil no período chuvoso, estão posicionadas mais à norte do que o comum pela influência da La Niña. Com o aparecimento de alguns ciclones no Oceano Atlântico – centros de baixa pressão atmosférica, que favorecem o aparecimento de ZCAS – o cenário se torna propício para a formação de nuvens, ventos, tempestades e agitação marítima. 

Carolina é uma das co-autoras do estudo Chuvas extremas e seus impactos no estado brasileiro de Minas Gerais em janeiro de 2020: podemos culpar as mudanças climáticas?, publicado em julho de 2021. O cenário do evento se assemelha em muito com o atual e o resultado, infelizmente, também: as fortes chuvas levaram à morte de 56 pessoas, mais de 90 mil desabrigados e pelo menos R$ 1,3 bilhão de perdas nos setores público e privado. “Nossas descobertas sugerem que as mudanças climáticas induzidas pelo homem tornaram esse evento >70% mais provável de ocorrer”, afirma o documento. 

Karina avalia que o estudo “é extremamente importante porque a atribuição de causa e a mensuração disso trazem novas e importantes evidências que contribuem com o conhecimento científico de diversas áreas”. A especialista também aponta a contribuição na aproximação da ciência climática com o público e mídia, tendo em vista que existe uma forte campanha negacionista em relação ao tema. “Campanha esta tão bem financiada por gigantes da indústria e ruidosa que, mesmo com vastas evidências, uma parcela considerável do público e mídia ainda tem dúvidas sobre a realidade do aquecimento global antropogênico e suas consequências”, afirma ela. 

“Devido ao grau de urgência em que nos encontramos, é imprescindível que a crise climática seja pauta não só quando um evento extremo acontece, mas o tempo todo”, afirma Karina. 

Karina Lima

Na conclusão, o estudo salienta que “apesar dos seus terríveis impactos na sociedade, um evento dessa magnitude foi avaliado como bastante comum. Isso exige melhorias imediatas no planejamento estratégico focado na mitigação e adaptação”. Das mesorregiões mais afetadas naquele ano, 20% dos municípios não foram mapeados anteriormente como regiões vulneráveis. Utilizado no estudo, o banco de dados S2iD foi apontado como necessário para permitir avaliações futuras de eficácia das intervenções políticas na minimização dos impactos dos eventos climáticos extremos. 

A questão da vulnerabilidade é importante para a contenção de danos. “O desastre se caracteriza pelas consequências de um evento adverso em um ecossistema vulnerável”, relembrou Karina. Ela continua: “segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais (2013), os desastres relacionados a eventos extremos de origem hidrometeorológica (chuva) foram os que mais afetaram o país durante o período de 1991 a 2012”. Logo, vemos outro componente desta equação: o preparo, ou despreparo, de autoridades públicas para com planos climáticos. Entre o período de dois anos, houve esforço estadual e federal para a criação de planos de monitoramento e mitigação nas regiões de Minas Gerais atingidas pelas chuvas em 2020?

Levantamos esse tema quando apontamos sobre os danos causados pelas enxurradas na cidade de São Paulo. O descaso público também é citado por Carolina: “as pessoas têm tratado esses desastres como uma fatalidade ‘surpresa’, uma revolta da mãe natureza causada pelas mudanças climáticas, o que tira a responsabilidade dos tomadores de decisão e gerenciadores”. Segundo a especialista, os deslizamentos, inundações e outros problemas causados pelas chuvas fortes podem ser em alguma medida evitados se houver planos de prevenção que usem informações de centros como o Instituto Nacional de Meteorologia  (INMET) e CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos).

Aprofundando componentes científicos

Para Carolina, o cenário se estabelece assim: as chuvas na Bahia e Minas Gerais são geradas por fenômenos conhecidos, mas a crise climática torna esses fenômenos mais frequentes e intensos ao longo dos anos. “Não me agrada usar as mudanças climáticas como desculpa para o que vem acontecendo”, defende, “existe sim o peso delas, que não são responsáveis pelas chuvas em si”. 

A comunidade científica têm, por muitos anos, debatido sobre como a influência da ação humana no aquecimento do globo tem potencializado o surgimento e intensidade do El Niño Oscilação Sul (ENSO). O último relatório do IPCC foi como um “bater de martelo” sobre o tema. “Ainda existe problemas nessa afirmação, principalmente como ela é usada pela mídia”, explica Carolina, “cientificamente não é possível atribuir um único evento às mudanças climáticas, porque a escala de tempo são diferentes e é extremamente difícil isolar efeitos de inúmeras variabilidades climáticas que compõe o sistema climático da Terra”. 

Segundo a especialista, os deslizamentos, inundações e outros problemas causados pelas chuvas fortes podem ser em alguma medida evitados se houver planos de prevenção que usem informações de centros como o Instituto Nacional de Meteorologia  (INMET) e CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos).

O método usado no artigo de Carolina é um dos mais atuais e aceitos, mas ela ainda frisa que existem algumas limitações, como qualquer outro método científico. É preciso que o fenômeno seja generalizado para quem seja avaliada estatisticamente se existe um aumento da probabilidade de ocorrência dele em um mundo com aquecimento quando comparado a um mundo hipotético onde não houve influência antrópica. “Quando olhamos pro ENSO, as coisas ficam mais complexas ainda porque o próprio fenômeno ainda traz muitas incertezas quanto aos seus mecanismos formadores e consequências no globo”, afirma.

Existem diferentes tipos de El Niño e La Niña, dependendo da área e modo como eles influenciam o globo. Em suma, diante de tantas variáveis, é difícil isolar os efeitos de um ou outro, e torna as projeções futuras mais incertas. “Acho que a maior parte dos veículos midiáticos não fazem essa comunicação de forma responsável”, aponta Carolina, “eu entendo que é um assunto difícil, que textos grandes com boas explicação não vão dar ‘cliques’, mas passar a informação de qualquer jeito não é a solução, porque cria medo e desinformação”. 

O que temos pra hoje

O futuro é incerto, mas a comparação da diminuição de gastos públicos do governo Bolsonaro com prevenção a desastres naturais e os valores já enviados para socorrer as vítimas das enxurradas nos dois estados é certamente um sinal de alerta para a população. O orçamento do Ministério de Desenvolvimento Regional de 2021 para tais prevenções foi 75% menor do que o de 2020: de R$ 714 milhões para R$ 171 milhões. Enquanto isso, já está contabilizada a aplicação do governo estadual de Minas Gerais de R$ 560 milhões e R$ 188 milhões do governo federal – R$ 48 mi para Minas Gerais e R$ 140 mi para a Bahia. 

Acima de tudo, é necessário investir na prevenção na esfera pública: com a proteção do solo, com reflorestamento, obras para dissipar e impedir o escoamento concentrado; na desocupação de áreas vulneráveis a acidentes; na preservação de encostas, nascentes e margens de rio – vale lembrar do PL 2510/2019, aprovado na Câmara dos Deputados e transformado na Lei Ordinária 14285/2021 e que justamente permite o contrário – e programas habitacionais. 

É essencial que municípios, estados e a federação disponham de planos climáticos em suas gestões – o tema é levantado em algumas cidades, como Florianópolis e Salvador. E essas estratégias precisam gerar resultados verdadeiros. A agenda verde é imprescindível, tendo em vista que a crise climática pode gerar danos diversos – não só as chuvas que estamos habituados. Por exemplo, a onda de calor que tomou parte do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai e elevou as temperaturas para além dos 40ºc também pode impactar operações aéreas e tens, além de gerar cortes programados de luz. 

Karina afirma que, infelizmente, o Brasil tende a sofrer muito com a crise climática. “Esse assunto precisa fazer parte do dia a dia das pessoas para que elas entendam o que está acontecendo e possam tomar boas decisões, inclusive cobrando pelas medidas necessárias”, reforça. Carolina complementa que “a sociedade tem que encarar as mudanças climáticas como uma realidade, não uma fatalidade, e cobrar dos governantes medidas de mitigação e gerenciamento de desastres eficazes”. 

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