Ecofeminismo Queer e Uma Nova Perspectiva ao Debate

modefica-IDENTIDADE-SELO-ECOFEMINISMO“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de matérias que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.
 

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A partir de uma perspectiva queer, queremos estranhar o ecofeminismo. Isso significa que é preciso acrescentar mais uma perspectiva, ou mais uma lente, ao debate e ir além da categoria gênero. Como vimos anteriormente, gênero é uma categoria de análise utilizada pelas ecofeministas para investigar a conexão entre diferentes “ismos” de dominação e colocar machismo, racismo e especismo em paridade, para serem todos superados.

Ao fazermos esse estranhamento e assimilarmos que não somente o gênero é construído socialmente, mas também o sexo, consequentemente somos levadas a refletir sobre a heterosexualidade normativa [1] projetada também no discurso ecofeminista.

Embora a crítica da teoria queer seja atrelada inicialmente ao binarismo sexual e se constitua como uma teoria pós-identitária [2], é possível abarcar os demais binarismos que não são problematizados em si, mas somente sua consequente hierarquização: “queer significa colocar-se contra a normalização – venha ela de onde vier” [3].

Embora a contribuição de ecofeministas como Karen J. Warren seja fundamental para o desenvolvimento de teorias éticas não especistas, Warren é enfática ao afirmar que o problema não está no dualismo em si (homem/mulher, humano/não humano, razão/emoção, cultura/natureza etc.), na medida em que reconhece a existência de diferenças, mas situa o problema em como um lado é mais valorizado em detrimento do outro. Embora problematize a dominação dos “de cima” (ups) sobre os “de baixo” (downs), Warren não questiona o próprio pensamento dualista, segundo o qual é sempre necessário estar de um lado ou de outro, o que denota seu pensamento binário.

Para a teoria queer é justamente o corpo que determina os lugares sociais ou as posições dos sujeitos nos grupos. As características do corpo são significadas culturalmente e passam a se tornar marcas de poder que distinguem os sujeitos por raça, etnia, gênero, classe, nacionalidade etc. [4] Se são as marcas – físicas ou simbólicas – que definem os sujeitos, então são elas que determinam suas respectivas identidades e espaços de inclusão ou exclusão, de ter ou não direitos e privilégios. [5]

Embora muitas ecofeministas entendam o heterossexismo como uma forma de opressão que também deve ser erradicada, muitas não o compreendem a partir da perspectiva queer, com a necessidade de incluir a categoria sexualidade na análise dos eixos de poder. A crítica ecofeminista queer se refere, portanto, ao fato que que a sexualidade também precisa ser entendida como uma forma de poder que tem definido o que é “natural” e o que vale como “natureza”. [6]

Ecofeministas queer, como Greta Gaard e Catriona Sandilands, afirmam que muitas correntes ecofeministas estão impregnadas pelo pensamento hétero, o que se reflete em três eixos: a) naturalização da heterossexualidade; b) projeção de uma heterossexualidade à natureza; e c) atribuição de um modelo hétero para as relações humanas e a ‘natureza’. É comum, por exemplo, ver a relação entre humanos e natureza a partir da erótica [7] hétero, segundo a qual a natureza é associada à mulher passiva explorada pela atividade humana. O que o ecofeminismo queer demonstra é que nesse pensamento se projeta um tipo de relação heterossexual, entendida de maneira tradicional e opressora. [8]

Para as ecofeministas queer, “não é suficiente simplesmente adicionar o ‘heterossexismo à longa lista de dominações que moldam nossas relações com a natureza, fingindo que podemos apenas ‘adicionar queers e mexer’ [9]. Consequentemente, o ecofeminismo deve buscar uma sociedade na qual a diversidade sexual e erótica também seja valorizada. [10]

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