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Livro “O Cérebro e a Moda” é Uma Ode ao Otimismo Em Meio ao Caos

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Breno Ampáro
Imagens

Victoria Lobo

6 min. tempo de leitura
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Por que você está lendo este livro? Dê-se um tempo para isso” é o que propõe o prólogo da autora Nathalia Anjos em seu livro lançado no final de 2020, , pela editora Senac. Bacharel em Negócios da Moda com ênfase em Marketing, pós-graduada em Neurociência e comportamento, a publicação lança-se a um ousado desafio: estabelecer conexões entre dois assuntos aparentemente intangíveis.

“De um lado, o cérebro com todas as suas milhares interconexões com o corpo, as múltiplas sinapses e toda as nuances e detalhes do encéfalo humano; de outro, flashes, passarelas, roupas, discursos imagéticos, o Olimpo Fashion. São esses os temas mediados pela autora em sua primeira empreitada literária.

Ao longo do livro, apresentam-se reflexões destacadas que convidam o público a um processo de introspecção e autoconhecimento. O referencial imagético utilizado pela autora como exemplaridade de seus argumentos é situado por meio de QR Codes, o que promove uma significativa nova forma de interação com a prática da leitura. Combinando hábitos – antigos e novos -, promovendo interfaces inusitadas e provocações pertinentes, Nathalia Anjos lança mão de um aparato técnico metodológico altamente complexo surpreendentemente expresso em linguagem fácil, sedutora e convidativa. As pessoas já tiveram o privilégio de ter desfrutado da convivência da autora facilmente terão a impressão de que é possível ouvir sua voz através de suas próprias palavras e expressões. Explico-me.

Comprometida com a missão de comunicar, a pesquisadora não se detém num formalismo mecânico e pouco atraente do discurso hermético muitas vezes encontrado em empreendimentos similares. Buscando esmiuçar todo o imbróglio das complexidades conceituais do aparato neurocientífico sem “pesar a mão” em sua escrita, a sensação é de que Nathalia estende as mãos ao seu público, num convite a um passeio que vai da passarela da moda ao laboratório de neurociência.

O capítulo inaugural, O conceito de moda no contexto, apresenta uma dinâmica clara e didática. Buscando desdobrar o assunto a partir de eixos basilares, a argumentação gira em torno de esmiuçar o conceito de moda à luz da contemporaneidade. Gatilho mediador da interface entre moda e neurociência, os sentidos essenciais, em especial a visão, são a porta de entrada do mundo fashion para a formação das experiências humanas. Engana-se, no entanto, quem acredita que basta uma combinação de holofotes, luzes e tecido para que se dê por entendido o universo da moda.

Anjos expõe, com a perícia de quem vive anos a fio a profissão, que para além de uma questão material, a moda expressa formas culturais – discursos, posições, mitos. Em uma alusão à adoração mitológica promovida pelo Olimpo Fashion, termo utilizado pela autora para endossar o argumento da germinal alienação promovida pelo “mundo da moda” e sua capacidade de transformar as formas de pensar e agir dos sujeitos, ela explica:

“Cito a Grécia porque é com a mesma mentalidade mitológica que concebemos nossos profissionais e figuras da moda; cito a religiosidade pois é com abnegação que seguimos regras de estilo, cores e padrões; cito a colonização, pois é com a mesma devastação que ficamos sem identidade; e cito a escravidão, pois é com o mesmo racismo que permanecemos presos aos conceitos tradicionais da moda”.

Num mergulho às profundezas estruturais da indústria em questão, o público pode captar de forma breve uma certa ontologia da moda. Tecendo a fio os mecanismos que engendram a cultura do trabalho “fashion”, evidenciando quem são e como são as pessoas que vivem o metabolismo da profissão, Nathalia não se deixa enganar quanto ao aspecto ideológico e político da atividade. Da posição onde se constroem e promovem discursos imagéticos, subestimam-se a capacidade intelectiva de trabalhadores e consumidores que põem a engrenagem em movimento. Aqui, a pesquisadora assume sua militância por uma outra forma de perceber, fazer e comprar moda: “escolher de forma consciente o que você via vestir é seu manifesto pessoal naquele dia e naquele momento, é um discurso poderosíssimo e que ninguém deveria fazer por você”, escreve ela.

Clamando pelo protagonismo individual e de certa maneira crítico, a argumentação se constrói numa cristalina convicção de que é possível que sujeitos atuantes quebrem paradigmas e assumam o papel de protagonistas de suas escolhas. O texto soa otimista, por vezes até ingênuo. Anjos, no entanto, ancora sua argumentação com o embasamento científico característico de quem não se detém nas aparências das impressões para estabelecer seu ponto de vista.

Os capítulos que se seguem inauguram o debate propriamente neurocientífico. Em Modelos mentais na área de moda: o impacto das imagens a que somos expostos, a discussão gira em torno de como a espécie humana processa as suas experiências; compõe seu acervo de dados; cria padrões de repetibilidade; administra informações novas. A essa combinação de fatores, a neurociência comumente denomina modelos mentais. A cientista mostra nesse momento a preponderância dos momentos objetivos captados pela sensibilidade dos sentidos humanos essenciais. Assim, acada estímulo externo que recebemos – uma imagem, um som, um cheiro, um toque – é enviado para o nosso córtex cerebral, e ali é ‘filtrado’ e encaminhado para sistemas específicos do cérebro. Se essas informações se encaixam, de alguma forma, em trilhas que já existem, é aquele circuito que será ativado, e ‘parece’ que estamos vivendo algo já conhecido, com poucos detalhes diferentes (p.80 – grifo meu).

Trata-se, pode-se dizer, de um jogo de repetições ou alternativas. Novas experiências criam novos circuitos neurais. Experiências com algum grau de similaridade em relação ao acervo de memórias do indivíduo são codificadas e reforçadas nos circuitos já existentes.

A partir do fio lançado, Nathalia arrima sua perspectiva do discurso imagético com o aparato cerebral. Anuncia-se a primazia visual perante a formação e manutenção de uma cultura baseada na imagem. Em Quebra de paradigmas da moda: imaginário coletivo X Realidade, o público leitor terá a oportunidade de entender como a dialética entre imaginário e realidade se determina na vivência humana. Um comportamento baseado em crenças limitantes, forjado à luz das determinações culturais é o nexo causal e reforçador das principais contradições entre a ficção da moda e o mundo tal qual se apresenta. A caixa de pandora do chamado “mundo fashion” é aberta. Desnudando a indústria, seu modo de funcionamento e a dilaceração humana proporcionada, Anjos descreve a crueldade do setor e esboça a sua alternativa, senão de completa disrupção, ao menos consciente, quiçá sustentável, de transformação.

A arte e seu potencial criativo entram em cena assumindo o protagonismo do argumento sobretudo pelo seu lastro humano. Segundo Anjos, “expressões artísticas são essencialmente humanas. Todo processo criativo exige uma determinada carga de energia pessoal, e colocamos naquela obra essa energia. Quando outras pessoas têm contato com essa criação e se conectam com aquela expressão, estão se conectando com a pessoa que criou aquilo.” (p. 157) É graças à arte e pela arte que a autora defende um potencial transformador, onde o lúdico se mistura com o essencialmente humano, expressando a potência latente do poder criativo e modelador da realidade.

O quarto capítulo, O cérebro e a moda: neuroplasticidade e neuroestética, apresenta o adensamento de mecanismos cognitivos e suas formas de expressão. A constante busca pela homeostase caracteriza o mecanismo de autoregulação instintiva de em organismos vivos. As conturbações nesse sistema induzem o movimento, modificação nas conexões neurais e novas sinapses. Toda essa elasticidade de configurações se apresenta sobre a forma de neuroplasticidade. É a partir desse arsenal que Nathalia situa o estado de atenção plena ou mindfulness, como:

“Mais uma forma de alcançar o autoconhecimento e de não cair nas ilusões da moda. Quando você está atento, plenamente presente, sem a intenção de julgar, você consegue organizar os elementos, os signos e as mensagens, compreender o histórico, o contexto e avaliar se aquilo se conecta ou não com você. Entende? É um tipo de superpoder de análise de imagens que nos permite não nos contaminarmos com o que não faz sentido para nós”.

Mais adiante, a pesquisadora retoma a Neuroestética. Nessa etapa, busca apresentar como a tecnologia e a inteligência artificial vêm sendo desenvolvidas com cada vez mais capacidades de ler e interpretar dados e metadados. As vantagens desse aprimoramento, segundo Nathalia, é a justaposição do particular versus as generalizações. Com mecanismos mais sensíveis ao coeficiente humano, é possível projetar, prever e entender as pessoas em suas individualidades, características, preferências e decisões.

A ilusão do futuro e sobre o que estamos discutindo quando falamos de moda, o derradeiro capítulo, se apresenta sob a forma de flashes de pensamentos que provocam ao público autorreflexão. A escritora encerra sua obra com uma verdadeira ode ao otimismo, afirmando o protagonismo humano frente a sua tomada de decisões. “Podemos escolher as imagens que consumimos”; “podemos escolher as imagens que produzimos”; “podemos exercitar nossa atenção plena, investir nosso tempo no presente com qualidade e presença”.

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Como provocação, este escriba questiona, podemos?

Nathalia Anjos apresenta um estudo primoroso, muito bem articulado e arejando novas ideias. Esclarecedor em boa parte da obra, provocativo em alguns momentos, trata-se de uma obra sedutora, não voltada apenas para o público da moda, mas também ao interessados em entender, ainda que de uma forma elementar porém ilustrativa, o funcionamento do cérebro humano. Como um outsider da moda, digo que o livro contribui para ampliar meus entendimentos de como nosso cotidiano se expressa nas nuances cognitivas de nossa composição biológica, forjando e modelando nossas formas de perceber o mundo.

No lugar de um encerramento tradicional, emitindo minha opinião ou provocações, gostaria de endereçar algumas questões à nossa autora e finalizar com a recomendação de leitura dessa linda obra, que nos convida a uma reflexão acerca de nossas escolhas, discursos e, porque não dizer, ao protagonismo.

• Seguindo a máxima de que somos seres totalmente capazes de transformação e adaptação. Argumentação que você sustenta firmemente e com sucesso se dá no campo da neurociência. Eu faria o mesmo. Mas gostaria de ouvir de você, quais são as suas impressões sobre até onde entende sermos capazes de nos transformar? Seremos uma espécie cambiável capaz de nos adaptar aos ecossistemas que estamos sempre criando e recriando? Você arriscaria dizer que existe um limite?

Vou responder considerando a perspectiva de que nós somos seres da natureza. Então pergunto: a natureza tem limites? A crise sanitária do Covid-19 é apenas uma amostra do que podemos viver numa Crise climática que já se apronta para entrar no palco social. Sim, temos limites como espécie. Mas eu gosto de pensar também numa perspectiva quântica que extrapola o relógio gregoriano e a linearidade de evolução e nos apresenta o cosmos como algo contínuo. O que quero dizer é que a vida como conhecemos já extrapolou seus limites há tempo e nós temos recursos em nosso córtéx combinado com nosso sistema nervoso, de elaborar alternativas para que a vida possa seguir, talvez, de um modo “melhor”.

Esses recursos possíveis estão no nosso “cérebro” mas é preciso compreender de forma integral a composição de nosso corpo. Não temos um homúnculo dirigindo nossa mente como muitas vezes é ilustrada essa “entidade” que gere o cérebro humano, não existe tal entidade mas uma rede hiper complexa e hiper conectada com todas as célular de nosso corpo. Quando digo no livro que nós somos um universo inteiro, é porque de fato somos se considerarmos 86 bilhões de neurônios conectados com nosso corpo e hormônios, neurotransmissores e muitas outras susbtâncias azeitando nossa tão prezada existência. Ou seja, temos limites como a natureza tem, mas também podemos ser infinitos como o cosmos. Respondi? rsrs

• Um dos pontos fortes do livro, na minha opinião, é a sua habilidade em descrever profundos desafios dos aspirantes à carreira da moda. Em que sentido esse livro é também um manifesto/denúncia das condições de trabalho? Você poderia descrever um pouco sobre o perfil das transformações que a carreira vem atravessando?

Minha intenção nunca foi denunciar, mas trazer a luz algo que sempre ficou lá no fundo dos corredores das flagships, no chão de fábrica, muito longe dos holofotes das passarelas. Para quem trabalha na área eu não trouxe nada de surpreendente, é realmente como o mercado funciona, ainda. Quando falamos em “profissão moda” temos um guarda chuva gigante de profissões e áreas de atuação, mas podemos dizer que em todas essas esferas passamos por uma densa reflexão sobre propósito, assim como uma necessária atualização de competências socioemocionais para que discursos e práticas sejam mais coerentes.

• Em que medida você entende que a mercantilização da arte pode promover uma baixa em seu coeficiente lúdico?

Vou trazer um conceito da neurociência para responder essa pergunta: Nosso cérebro tem, já famoso, sistema de recompensas. Hoje em dia as pessoas tem muito interesse em saber sobre esse sistema principalmente para trabalhar treinamentos de equipes de vendas e manter as pessoas no auge da motivação para continuar vendendo e as empresas continuarem lucrando.

Acredito que muita gente já ouviu falar sobre a dopamina e sobre como esse é o neurotransmissor responsável pelo sentimento de recompesa que vem seguido de prazer, alegria, bem estar e etc. Acontece que quando olhamos para esse sistema nas expressões artísticas, identificamos que o artista já recebe uma “dose de dopamina” durante o processo de sua arte e portanto a maior recompensa é interna. O cérebro já gratifica a obra. Quando atrelado à uma recompensa monetária a intenção é outra, o processo é outro e então, a recompensa também é outra. Leonard Mlodinow fala mais sobre esse tema no livro Elástico.

Texto escrito por Breno Ampáro, doutorando do Programa de História na PUC SP - Bolsista CAPES, desenvolve atividades nas áreas história do trabalho, artes e ciência. Mestre em História pela mesma universidade. Bacharel em Ciências Econômicas. Possui formação técnica em música. Atuou por diversas orquestras da grande São Paulo como contrabaixista. Membro do Núcleo de Estudos de História: Trabalho, Ideologia e Poder ( NEHTIPO - PUC/SP CNPQ) vinculado Às linhas de pesquisa (i) Estudos Sobre Autocracia e Politicismo, e (ii) Ontologia, História e Arte.
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