Moda e Psicologia: Uma Dupla Importante Para Uma Moda Mais Sustentável

Quando se fala sobre moda e psicologia, muita gente estranha ao primeiro olhar. Principalmente pelo caráter volátil e efêmero construído em torno da moda. Contudo, a relação entre ambas é bem clara e uma está intrinsecamente ligada a outra. A psicologia é uma ciência social que estuda a psique humana e a moda é uma manifestação sociocultural, diretamente ligada a todos nós, indivíduos e membros de uma sociedade. Entende-se então que a moda como expressão individual e coletiva (social) pode ser objeto de estudo da psicologia.

É importante destacar que a moda é muito mais do que a maioria das pessoas imagina. O construcionismo social criado sobre moda a desenha como puramente tendências, passarelas, compras e produto em si. Ou seja, desliga a moda de toda a sua multidisciplinaridade, focando em objeto de consumo. Na realidade, moda está altamente relacionada à economia, política, cultura, agronegócio, sociologia, antropologia, dentre tantas outras coisas.

Mas antes de comentar mais a fundo como moda e psicologia estão atreladas, uma importante diferenciação precisa ser feita. De cinco anos para cá algumas publicações elencaram profissões do futuro e dentre eles está o “psicólogo da moda”, mas o que significa isso? Mais ainda: alguns profissionais se apresentam desta forma, mas não são psicólogos de fato. Como é isso? Existem no mercado dois tipos de segmentos que trabalham a relação de moda e psicologia: a psicologia da moda e a psicologia aplicada à moda. No primeiro vemos claramente a figura do personal stylist ou consultor de imagem pessoal, que, em linhas gerais, trabalha a psicologia das cores, estilo pessoal, um pouco de personalidade, formação de imagem e biotipos (tipos de corpos). Assim, o que o mercado propõe atualmente como psicólogo da moda é a pessoa que atua no âmbito da imagem pessoal, mas essa pessoa não é necessariamente psicóloga por formação acadêmica.

Já a psicologia aplicada à moda trabalha construcionismo social, auto imagem e percepção do self (eu), autoestima, bem-estar, comportamento do consumidor, representatividade, senso de pertencimento, autoexpressão, sustentabilidade, entre outros temas que exigem do profissional de psicologia aplicada à moda alguma formação acadêmica em psicologia. Ele pode ainda realizar pesquisas científicas em torno do mercado e público, focando em métricas diferenciadas como testes de personalidade (mas atenção, aqui falo de testes sérios e validados, não os de Buzzfeed), análise de empatia, estudo de emoções e sentimentos, reações e percepções, tudo para melhor entender o público com o qual quer criar uma conversa.

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A psicologia aplicada à moda é uma ferramenta essencial quando falamos, por exemplo, de incentivar o público a adotar comportamentos de consumo mais sustentáveis, não apenas pela utilização de pesquisas quantitativas (muito mais confiáveis por conta do seu caráter matemático), mas também pela aplicação de técnicas e ferramentas próprias da psicologia como, por exemplo, o positive framing (ou a psicologia positiva).

Já existe uma série de estudos responsáveis por mostrar que a forma como a mensagem é transmitida para o público faz toda a diferença. O positive framing entra neste contexto para direcionar a comunicação focando nos ganhos, levando o público a ter uma percepção mais positiva sobre a informação passada. Um exemplo: pessoas são mais motivadas a comprarem produtos com impacto socioambiental positivo por se sentirem orgulhosas com tal compra. Quando tentamos convencer por vias negativas utilizando ferramentas como, por exemplo, a culpa, são menores as chances de ganhar a atenção da pessoa. Dessa forma, a lição que fica é: quando entendemos as pessoas melhor criamos para elas e melhor nos comunicamos com elas.

Algumas outras maneiras de se abordar a moda através da psicologia envolvem psicologia da motivação, psicologia da emoção, psicologia da percepção e psicologia da personalidade. Dentre elas podemos destacar alguns exemplos, como quando falamos de construcionismo social e a discussão de padrões de beleza e o que uma sociedade entende como belo: quais as implicações disso para a formação da auto imagem de jovens mulheres, principalmente levando as mídias sociais em consideração?

Também podemos discutir a saúde mental dos trabalhadores na indústria: estilistas e outros profissionais que sofrem pressões imensas para se enquadrarem em padrões comerciais e de comportamento; trabalhadores algodoeiros que cometem suicídio por contas das dívidas geradas através do monopólio de sementes geneticamente modeficadas; mulheres exploradas e abusadas verbal e fisicamente em confecções, dentre tantas situações. Exemplos que, empiricamente, deixam claro a complexidade da moda e como a psicologia se relaciona com esta para muito além do consumo.

Para quem quiser se aprofundar nos estudos sobre moda e psicologia, algumas universidades já oferecem cursos de graduação e pós-graduação como o London College of Fashion – UAL e várias profissionais que atuam dentro e fora da academia como Aurora Paillard, Dawn Karen e Carolyn Mair. No Brasil ainda temos poucos estudos na área, mas fica aqui um chamado para que mais reflexões sejam feitas e sejamos capazes de enxergar a multidisciplinaridade da moda com suas diversas implicações.

 

Referências Bibliográficas:

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2. Dodge, R., Daly, A., Huyton, J., & Sanders, L. (2012). The challenge of defining wellbeing. International Journal of Wellbeing, 2(3), 222-235. doi:10.5502/ijw.v2i3.
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9. Mann, S. E. (2015): Style Therapy: Fashion as Self-Care. CreateSpace Independent Publishing Platform; 1 edition.

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