A Lógica da Dominação Explica o Porquê Sexismo e Especismo Andam Juntos

“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

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A partir de conceitos e argumentos, a filosofia ecofeminista busca compreender as interconexões entre a opressão dos animais, da natureza, das mulheres e de outros grupos em situação de vulnerabilidade. Como visto anteriormente no texto “Por que mulheres, animais e natureza sob o mesmo olhar” as interconexões são diversas: histórica, empírica, ética, política e conceitual, por exemplo. Embora todas sejam importantes para evidenciar a necessidade de perceber o que há em comum entre as diferentes formas de dominação, a filosofia ecofeminista trabalha especialmente com a conexão conceitual.

Tendo gênero como categoria de análise, a filosofia ecofeminista entende que sexismo, especismo e outros “ismos” de dominação (classismo, heterossexismo, racismo etc.) funcionam sob a mesma lógica. É justamente por isso que a filosofia ecofeminista pode contribuir com argumentos em favor da superação da discriminação e opressão, seja contra humanas/os ou outros que não humanas/os.

Essa lógica de dominação faz parte de algo mais amplo, que a filósofa Karen J. Warren chama de estruturas conceituais opressoras. As estruturas conceituais são entendidas como um conjunto de crenças básicas, valores, atitudes e pressupostos que dão forma e refletem como alguém vê a si mesmo e ao mundo, funcionando como uma lente socialmente construída a partir da qual se percebe a realidade. Elas não são intrinsecamente opressoras, mas passam a ser quando são afetadas por fatores diversos (gênero, raça/etnia, idade, orientação sexual, espécie etc.). A partir de então elas são usadas para explicar, manter e “justificar” as relações de dominação e subordinação injustificadas.

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Assim, uma estrutura conceitual opressora de viés machista, por exemplo visa “justificar” a subordinação das mulheres pelos homens. A base conceitual dessas estruturas de dominação está localizada nos dualismos de valor hierarquicamente organizados: homem/razão/branco/cis/humano/cultura de um lado, e mulher/emoção/negra/trans/animal/natureza do outro.

Uma concepção interseccional busca manter a coerência, seja prática ou teórica, na defesa das mulheres, dos animais ou de quaisquer outros grupos.

Em virtude das mulheres, a natureza e os animais estarem associados ao mesmo lado do dualismo, e os homens ao outro, é relevante pensar em conjunto na superação dessas dicotomias e nas diferentes formas de dominação, independentemente da espécie (seja contra humanas/os ou outros que não humanas/os).

Assim, da mesma maneira como sexismo e especismo fazem sentido juntos, considerando que há uma mesma lógica de dominação que visa justificar, mesmo que injustificadamente, a subordinação de mulheres e animais, a superação dos “ismos” de dominação também faz sentido de serem pensados juntos.

Uma concepção interseccional busca manter a coerência, seja prática ou teórica, na defesa das mulheres, dos animais ou de quaisquer outros grupos. Nesse sentido, romper com a lógica binária que hierarquiza e relega um espaço inferior às mulheres e aos animais (em contraposição aos homens e aos/às humanos/nas, respectivamente) significa romper também com a dicotomia direitos humanos/direitos animais.

Se, como afirma Tom Regan, os direitos humanos podem ser entendidos como um sinal de “entrada proibida”, que visam garantir a vida, a liberdade e a integridade física, então esses direitos morais precisam ser garantidos também aos animais, além dos/as humanos/as. Com a ampliação do círculo de moralidade, é a possibilidade de ter a vida, a liberdade ou a integridade física violadas que impõe essa proibição, não o fato de pertencer à espécie humana.

Achar que o movimento feminista é mais importante do que o animalista, ou ao contrário, não contribui com o objetivo de alcançar a libertação da opressão.

A partir do momento em que se considera moralmente os animais, tanto quanto os/as humanos/as, percebemos que se não tivermos um olhar mais amplo corremos o risco de reforçar outras formas de discriminação. Pensando a partir de um exemplo, podemos citar a questão do aborto. Em um argumento simplificado, ser a favor da vida dos animais implicaria um posicionamento contrário a legalização e/ou descriminalização da interrupção voluntária da gravidez, pois ser a favor da vida seria também ser a favor da vida do feto. Carol J. Adams, teóloga ecofeminsta, argumenta que a lógica é justamente oposta: ser a favor da vida dos animais é coerente com a posição a favor da vida da mulher e do respeito a sua autonomia [1].

Teoricamente, humanos já fazem parte do círculo de consideração moral, mas na prática ainda existem muitas violações racistas, LGBTfóbicas, machistas, classistas e assim por diante. Um exemplo que ilustra essa violação/negação de direitos é o sistema penal extremante seletivo, que tem cor e classe social.

Logo, quando quisermos reduzir a violência contra animais e pensarmos no aumento de pena, não podemos fechar os olhos para o fato de que a população carcerária é composta majoritariamente por negros e pobres, que compõem os grupos mais sujeitos ao encarceramento, não porque cometam mais crimes, mas por estarem sujeitos à referida seletividade.

Ser a favor da vida dos animais é coerente com a posição a favor da vida da mulher e do respeito a sua autonomia

A hierarquização das pautas – dos animais e dos/as humanos/as – dificulta essa ampliação. Achar que o movimento feminista é mais importante do que o animalista, ou ao contrário, não contribui com o objetivo de alcançar a libertação da opressão. Essa é justamente uma das contribuições do ecofeminismo: mostrar que a lógica é a mesma para todos os “ismos” de dominação. Na prática, nem todas as pessoas vão se engajar em todas as pautas – movimento negro, feminista, animal, ambiental etc. -, inclusive porque cada uma ocupa um lugar de representação. Mas se não incorrermos no erro de discriminar outras pautas, já estamos contribuindo para com todas elas.

Notas de rodapé:

[1] Desenvolvo os argumentos apresentados por Adams no artigo em co-autoria com Tamara A. Gonçalves no artigo “Aborto em perspectiva ecofeminista”, publicado na Revista Geni.

Imagem: Time Modefica

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