O Que é Racismo Ambiental?

O Politicamente Incorreto… E Ambientalmente Também é o podcast mensal sobre política e meio ambiente do Modefica. Marina Colerato, editora do site, conversa com pessoas convidadas sobre as  convergências entre Brasília e sustentabilidade, levantando o que está acontecendo em termos de governo e legislação, como entender as manobras e como podemos atuar para interferir nesse lugar, que parece tão distante, mas na verdade está tão perto de nós. Ele vai ao ar na última semana de cada mês. Ouça no SpotifyiTunes, Deezer ou no seu player preferido.

 

 

Inauguramos o primeiro episódio especial do Politicamente Incorreto e Ambientalmente Também falando sobre racismo ambiental. Com os episódios especiais, a ideia é trazer pautas, conceitos, temas importantes e atemporais para o debate de sustentabilidade e questões socioambientais. Nesse episódio, recebemos Tânia Pacheco, criadora do blog Combate ao Racismo Ambiental e idealizadora do Mapa de Conflitos da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Conversamos sobre o que as relações de racismo estrutural com questões ambientais, de onde surgiu o conceito, como o racismo ambiental se dá hoje aqui no Brasil e as relações com o debate de justiça ambiental.

Formada em jornalismo, com mestrado em educação e doutorado em história social, Tânia nos conta que sempre entendeu que quem teve acesso à educação de qualidade, que é privilegiado por poder construir uma concepção de mundo embasado em informações, tem o compromisso com muitas pessoas que trabalham de forma a nos possibilitar chegar onde chegamos e não tiveram as chances que tivemos ao longo da vida. “A gente tem um grande compromisso com o povo desse país”, afirma.

Há mais de uma década, Tânia começou a questionar sobre justiça e racismo ambiental. Desses questionamentos e lutas veio o blog Combate ao Racismo Ambiental e, mais tarde, a ideia de construir um mapa – inicialmente apenas envolvendo tais temas -, mas que acabou se transformando em um mapa que envolvesse injustiça ambiental, um conceito mais amplo. Tânia salienta que “lutar contra estas questões de racismo, injustiça, é algo que vem das minhas entranhas”.

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Ao falar sobre todos esses conflitos, ela explica ser impossível pautar racismo ambiental sem olhar para o racismo permeado na sociedade, porque ele é uma consequência de questões muito maiores, provindo do racismo estrutural e institucional. Para contextualizar a diferença de “racismo” e “racismo ambiental” – e a importância de diferenciá-los – Tânia nos conta onde surgiu o termo. Somos levados ao final da década de 1970, na Carolina do Norte, Estados Unidos, em um condado onde a convivência com o despejo de rejeitos tóxicos das indústrias de se tornou uma realidade.

A luta incessante da população negra leva o termo “racismo ambiental” para dentro de universidade, no exterior e na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco-92, no Rio de Janeiro. “A importância de usar essa expressão está na medida que permite uma auto identificação fundamental que realimenta o processo de luta”, explica Tânia, “propicia o entendimento que o racismo é uma ferramenta fundamental na expropriação do território, de direito dessas comunidades”. Como exemplo, Tânia nos conta sobre uma palestra que deu sobre o tema, na Bahia, e onde escutou de um quilombola que ele “sofria desse negócio, só não sabia que tinha esse nome”.

Marina ressalta a importância de ter noção histórica e nomear as coisas para o fortalecimento do ativismo e aproveita para perguntar à Tânia o que ela acha da cobertura midiática do tema. A jornalista acredita que houve um crescimento intensivo das lutas nas últimas décadas, do movimento indígena, negro, das mulheres, mas que ainda não é suficiente. “A Constituição deu 5 anos para que todas as Terras Indígenas e Quilombolas fossem regularizadas e estamos em 2020, 32 anos depois, e sabemos como as coisas andam. O que é dito, atualmente, é que ‘acabou a brincadeira’”, pontua.

Pandemia e o fortalecimento da necropolítica

Quando falamos sobre Covid-19, Tânia ressalta que o posicionamento do governo não é apenas com não mandar itens essenciais para os povos indígenas, deixar com povos isolados tenham contato com invasores, ou negar água para comunidades, mas esse posicionamento também se mostra nas aglomerações nas cidades onde as pessoas precisam fazer fila na porta do banco em busca do auxílio emergencial. “Amontoa gente pobre, gente que não tem condições de lavar as mãos, que não tem condição de comer mais de uma refeição por dia – se tem – você deixa a natureza da pandemia agir”, conta, “e você consegue, aqui, por exemplo, em Mato Grosso do Sul, ter uma loucura de 69 novos infectados ontem, quando, até então, eram 60 em todo o período de pandemia”.

Tânia define o momento atual como “um momento vergonhoso”: “era para todos nós estarmos gritando”. Mesmo estando de casa, ela defende que devemos “gritar” e não sermos coniventes, por omissão, com a destruição cultural, o genocídio e etnocídio, em suma, com a necropolítica em fluxo.

Citando o Mapa de Conflitos, Tânia explica que uma das finalidades do site é dar vozes às comunidades, de forma não só a legitimar suas lutas, mas servir de conteúdo a ser utilizado para trabalhos acadêmicos, para mídias como o Modefica e para organizações internacionais. A denúncia exposta também faz com que outros povos encontrem ali situações parecidas com as suas e tirem soluções, parceiros, encontre meios de fortalecer suas lutas. O Mapa de Conflitos está paralisado atualmente. Tânia explica que a iniciativa foi ao ar em 2010 e até 2016 era financiada pelo Ministério da Saúde, mas que “com o golpe de 2016, os recursos para um período de 2, 3 anos, foram bloqueados”. Desde então, o mapa vem contando com a ajuda da Fiocruz, mas esta tem recursos limitados.

Porém, a jornalista nos dá em primeira mão uma ótima notícia e aproveita para contar um pouco mais sobre o blog Combate ao Racismo Ambiental. Marina conta que, tanto o blog quanto o mapa, serviram diversas vezes como fonte para nossas matérias aqui, como quando falamos dos conflitos envolvendo a produção de algodão. Com usabilidade fácil e repleto de informações, ambas fontes são essenciais para quem busca e estuda sobre justiça ambiental.

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