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Novo Relatório Aponta Fracasso da Autorregulamentação na Indústria da Moda

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  • Juliana Aguilera
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Victoria Lobo

7 min. tempo de leitura
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Certificações como Bluesign e Cradle to Cradle (C2C) auxiliam imagem “sustentável” de empresas, mas fogem de metas de responsabilidade socioambiental.

A indústria da moda está repleta de certificações de sustentabilidade – são mais de 100 – e, ainda sim, é um dos setores menos regulamentados do mundo. Com a situação da emergência climática tocando cada vez mais pessoas, e subindo na agenda de grandes marcas, elas também correm para garantir seu selo sustentável. Mas um novo estudo aponta que os programas de certificação, na verdade, representam uma forma altamente sofisticada de lavagem verde. O motivo principal, salienta o estudo, é que as metas são feitas de forma voluntária e não há penalização legal caso não sejam cumpridas – fazendo com que pouco, ou nada, de compromissos pareça uma grande ação ambiental.

O relatório Licence to Greenwashing, da Changing Markets Foundation, traz uma análise quantitativa das principais iniciativas dentre os mais de 100 programas de certificação de sustentabilidade em uso na indústria têxtil e listados no Ecolabel Index. Foram escolhidas as iniciativas que abordam questões de circularidade, superprodução e ascensão do fast fashion, gerenciamento de fim de vida e eliminação de produtos químicos tóxicos da produção ou fabricação. 

Foram avaliados os selos de certificação: Bluesign®, Cradle to Cradle (C2C), EU Ecolabel, OEKO-TEX® e Global Recycled Standard and Recycled Claim Standard da Textile Exchange), iniciativas multissetoriais (The Ellen MacArthur Foundation (EMF), The Microfibre Consortium (TMC) e ZDHC) e conjunto de ferramentas de autoavaliação (Higg Index e WRAP). O que estas iniciativas têm em comum: todas são voluntárias e desfrutam de altos níveis de adesão da indústria e promoção cruzada.

À medida em que a conscientização e a preocupação dos consumidores com questões ambientais aumentaram, também aumentou a visibilidade dos programas de certificação. A tendência se acelerou a partir da década de 1990, em conjunto com uma reestruturação das redes de suprimentos industriais para aproveitar a mão de obra e manufatura mais barata em países de baixa e média renda. Neste cenário, também vimos o aumento do número de peças de roupa compradas por consumidores – o valor duplicou nos últimos 20 anos e deve aumentar 63% até 2030. 

Ao mesmo tempo, o número de vezes que as peças são utilizadas antes de serem descartadas diminuiu quase 40% nos últimos 15 anos. Essa tendência foi impulsionada pela dependência do setor em fibras sintéticas baratas, que representam mais de dois terços de todo material usado em têxteis, o que também facilitou a compra de roupas mais baratas. Nota-se, então, a importância do petróleo para a indústria da moda – que, aliás, não é levado em conta em nenhuma iniciativa. 

Por que falham

O estuda avalia o nível de ambição, escopo de melhoria contínua, independência, transparência e histórico de desempenho proposto pelas iniciativas voluntárias. A conclusão é que “a maioria das iniciativas analisadas nesse relatório não consegue sustentar de forma significativa os altos níveis de ambição e, portanto, fornecem uma cortina de fumaça para empresas que querem aparentar estar dando passos em direção à sustentabilidade”. Aprofundando, são destacados seis quesitos: primeiramente, a maioria não estabelece requisitos e prazos rígidos para que seus membros aumentem progressivamente suas ambições. 

Foram avaliados, por exemplo, os indicadores: “a certificação exige que os membros cumpram requisitos rigorosos em um prazo definido?”, “eles estão comprometidos com a melhoria contínua, com critérios claros de exclusão para maus desempenhos?”, “a certificação cobre todo o ciclo de vida do produto? Se não, eles são claros e transparentes sobre isso ou fazem alegações sobre sustentabilidade com base em uma imagem limitada?”. Entre as iniciativas que não geram um alto nível de ambição, foram listadas: SAC (Sustainable Apparel Coalition) e Higg Index, Ellen MacArthur Foundation, C2C, entre outros. 

O segundo ponto foi a concentração em apenas alguns aspectos dos estágios de ciclo de vida do produto – o estudo deu destaque para o C2C e Higg Materials Sustainability Index. “Isso permite que os programas moldem uma certa visão de sustentabilidade que pode não refletir a realidade”, afirma o documento. Por conta disso, uma marca precisaria usar vários rótulos e ser signatária de várias iniciativas para cobrir os diversos impactos sociais e ambientais de seus produtos em toda a rede produtiva.   

As iniciativas voluntárias também sofrem altos níveis de influência, comprometendo assim sua independência perante marcas que financiam os programas de certificação ou estão envolvidas em sua estrutura de governança. Grandes programas, como o SAC e seu Higg Index, formam uma teia de influência com outros programas e marcas, criando uma rede que sufoca o debate e modelos alternativos. Apesar de iniciativas como C2C, Bluesign® e OEKO-TEX® terem sido apontadas com “independência comprometida”, um único programa de certificação se classificou como “nível alto de independência”: o EU Ecolabel. 

Uma marca precisaria usar vários rótulos e ser signatária de várias iniciativas para cobrir os diversos impactos sociais e ambientais de seus produtos em toda a rede produtiva.

O estudo explica que “embora ainda voluntária, a certificação é implementada através do regulamento (EC) nº 66/2010 do Parlamento Europeu”. Logo, ao contrário de outros programas com taxas de adesão pagas que conferem elegibilidade a cargos de poder, as taxas do Eu Ecolabel são transparentes e estabelecidas por um órgão competente. Elas também possuem um limite de taxa anual para a utilização da certificação. 

A transparência é um ponto fraco para todas as iniciativas analisadas. O relatório avalia a confusão entre transparência e publicidade. Transparência não é apenas comunicar seu sucesso ou de seus membros se, quando e como isso lhe agradar. Ela é um pilar fundamental da sustentabilidade – uma empresa não pode gerenciar, nem se responsabilizar, por algo que não se mede ou não se revela. É necessário que uma empresa compartilhe sistematicamente informações, mesmo quando elas mostram a falta de progresso ou até o retrocesso. E nisso, novamente, os selos de certificação falham em endereçar. “Apesar de uma enxurrada de programas de transparência, muitos evitam tópicos importantes”, alega o relatório, “como incentivar ou exigir transparência total da rede de suprimento de seus membros, que vai além de suas redes de fornecedores de nível 1”. 

Moda fóssil: certificada

Um destaque especial feito pelo relatório está na dependência do petróleo e na relutância em olhar para os problemas dos microplásticos, ainda que estes estejam presentes em todas as etapas de produção das peças sintéticas e artificiais. O melhor cenário presente nas pesquisas realizadas pela organização é a menção a fibras à base de plástico ou a necessidade de minimizar a dependência de recursos virgens – sem declarar que os combustíveis fósseis são a matéria-prima de tais fibras. As certificadoras também ignoram o reconhecimento de que, segundo dados de 2015, a produção de poliéster sozinha emitiu o equivalente a 180 usinas a carvão por ano. 

Agora, na pior das hipóteses, iniciativas como o Higg Index, apresentam os sintéticos como a melhor escolha ambiental – alimentando o próprio problema que eles afirmam combater. Já a Bluesign®, OEKO-TEX® e ZDHC, que se preocupam principalmente com produtos químicos e substâncias perigosas, não abordam a questão, apesar da composição tóxica dos materiais plásticos. “Como tal, a certificação por esses selos pode estar dando uma ilusão de sustentabilidade, ignorando a questão mais ampla de ambientes tóxicos”, sinaliza o relatório. 

Transparência não é apenas comunicar seu sucesso ou de seus membros se, quando e como isso lhe agradar.

Quando se trata de microfibras, o estudo afirma que as iniciativas estão “dormindo no volante” e justificando sua inação por não haver pesquisas ou ferramentas de medição suficientes. No máximo, tais iniciativas apontam para metas distantes, em vez de tomar medidas de precaução, como limitação ao uso de fibras sintéticas. Muitas marcas confiam no Consórcio de Microfibras1O consórcio tem como objetivo oferecer soluções a marcas, varejistas e fabricantes para transformar a produção têxtil e minimizar impactos ambientais. Ele dispõe de ferramentas como um “roadmap” e um portal de informações de microfibras. , encarregado de desenvolver um método de medição universal. Mas este, após anos de trabalho, só liberou ferramentas para membros pagantes e parece ter um viés preocupante em favor dos sintéticos, destaca o estudo. 

Apesar de iniciativas como EMF, WRAP E ZDHC citarem problemas de liberação de microfibras, nenhuma oferece ações concretas ou medidas quantitativas para reduzir a produção de materiais que desprendem as microfibras. Algumas “soluções” chegam a ser propostas, como filtros para máquinas de lavar, mas elas não podem realmente mitigar os efeitos danosos das microfibras em larga escala.

Por fim, algumas certificações começam a abordar questões de fim de vida dos têxteis, mas “muito disso é retórica e não ação”, sintetiza o documento, “nossa análise revela que as iniciativas têm pouco a dizer sobre a fast fashion e superprodução e ignoram como o modelo de negócio predominante da indústria está alavancando o desastre ambiental”. O gerenciamento adequado do lixo têxtil é tomado como “uma questão agradável de se ter”, e não uma questão crítica que as certificações devem ter. 

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Recomendações

Segundo o relatório, na melhor das hipóteses, as certificações são uma promessa irregular de sustentabilidade, capaz de oferecer um grau de garantia em uma pequena prática de produção ou seção da rede de suprimentos. Na pior, são conversas de negócios sem ambição, opacas, irresponsáveis, que resultam em uma cortina de fumaça em toda a indústria da moda, permitindo a lavagem verde em grande escala. 

Uma das táticas mais utilizadas pelas marcas, nesta questão, é o atraso. O atraso é feito da seguinte forma: elas criam uma lista enorme de compromissos voluntários, sem metas obrigatórias ou juridicamente vinculadas, para um futuro distante, como 2030, 2035. Não existe nenhuma transparência sobre o progresso de suas metas. Existe também a “estratégia circular” de marcas como H&M e Zara, que adicionam como “solução” de fim de vida das peças a devolução das mesmas em suas lojas. Esse tipo de conduta é incentivado pelos princípios do EMF e WRAP. 

Porém, muitos destes esquemas de devolução enviam roupas para países do Sul global que são inundados por grandes volumes de roupas de segunda mão. Ou ainda, são enviadas para aterros sanitários ou incineradas. Um relatório da Textile Exchange já constatou que 52% das empresas pesquisadas não sabem ou têm pouca visibilidade sobre o que acontece a estas roupas devolvidas. 

Segundo dados de 2015, a produção de poliéster sozinha emitiu o equivalente a 180 usinas a carvão por ano.

Outra tática utilizada é o marketing sob peças certificadas que representam apenas uma porção pequena de uma coleção, mas que recebe mais destaque em redes sociais, site e reportagens. É o caso da C&A, em 2021, que promoveu sua certificação C2C, mas que só abrangia 21 produtos de mais de 3 mil peças. 

A recomendação primordial, então, é a criação e fortalecimento da legislação, frente à emergência climática. “Uma legislação e uma regulamentação eficaz são o caminho claro a seguir. Os produtos sustentáveis devem ser a norma, não a exceção – e a única maneira de conseguir isso é nivelar o campo de atuação”, expressa o relatório. Há o destaque também que não deve recair sobre o cliente a escolha da opção “mais sustentável”. 

Em julho de 2022, a União Europeia deve publicar sua proposta de reinvicações verdes, semelhante ao aplicado pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar. O relatório sugere a criação de imposto sobre fibras plásticas verdes, leis rígidas quanto à poluição por microfibras, proibição de produtos químicos preocupantes e obrigação das empresas de transparência total da rede de suprimento. Entre as principais demandas sobre a dependência de combustíveis fósseis está a redução de 20% do uso dos fósseis para a linha de base até 2025 – com base em 2021 – e uma redução de 50% até 2030. 

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