Sustentabilidade na Moda: Entenda a Diferença Entre Rastreabilidade e Transparência

Rastreabilidade não é a mesma coisa que transparência, mas não tem como falar de transparência sem falar de rastreabilidade. Os termos são muito utilizados no contexto da moda, de tal forma que, às vezes, sentimos até que eles estão sendo esvaziados. No Modefica, estamos sempre indo de encontro à rastreabilidade e à transparência quando falamos de modelos mais justos de negócio. Por isso, decidimos retomar um pouco o assunto, relembrar algumas situações que já tratamos por aqui, como o escândalo da Loja 3 e as consequências da precarização da rede produtiva, para desmistificar, enfim, os conceitos de ambas ferramentas.

O dicionário Michaelis define rastreabilidade como “programa de acompanhamento sistematizado de um produto, desde sua origem, passando pelo processo de fabricação e manuseio, até o seu destino final”. Já transparência é definida como “característica de quem age de modo franco e sem subterfúgios”. Ambas ferramentas são fundamentais para tornar a indústria da moda mais equitativa e justa. O Brasil é um caso à parte nessa indústria: por aqui, produzimos, consumimos e descartamos roupas no nosso próprio território. Ao total, são 25,2 mil empresas no setor (IEMI, 2019), sendo a grande maioria, cerca de 96,8%, formado por micro e pequenas empresas (ABIT, 2017).

A indústria têxtil brasileira emprega, diretamente, 1,5 milhão de trabalhadores, tendo a maior concentração de empregados no início da rede produtiva, na confecção. Além de sermos autossuficientes na produção de vestuário, o Brasil é hoje o 5º maior produtor têxtil e 4º maior confeccionista do mundo. Em uma conversa com o Modefica, em 2019, Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), afirmou que “poucos países do mundo têm todos esses elos inseridos dentro de uma mesma região”.

Pulverizadas, as empresas funcionam em uma dinâmica de uma corta, a outra costura, a outra faz a lavagem do jeans, a outra estampa. Logo, rastrear componentes de um produto torna-se uma missão complexa. Sem estímulo jurídico-legal o que vemos é uma escassez de iniciativas de rastreabilidade por parte das empresas. Essa brecha acaba gerando diversos impactos sociais e ambientais, como: más condições de trabalho; informalidade; trabalho análogo ao escravo; subcontratações; falta de proteção para uso de agrotóxicos e substâncias químicas; trabalho infantil; equipamentos tecnológicos caros e um desconhecimento de como trabalhar com novas tecnologias. No topo dos empecilhos para mudança está a dificuldade de união e articulação do setor, algo que torna o processo de colaboração entre os diferentes atores, essencial para qualquer transformação estrutural, em moroso quando não inexistente.

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Não dá ou não quer?

Mas postas as dificuldades, quão difícil realmente é rastrear um produto quando se tem controle operacional e logístico de toda sua rede? É importante notar que a problemática da rastreabilidade não é exclusiva da indústria da moda, muito menos apenas um problema nacional. Quando pensamos na indústria da carne, por exemplo, toma-se como média que uma única transação com fornecedor direito inclui compras de 15 indiretos. A moda tem muito mais, podendo ultrapassar 100 etapas.

Vamos a um exemplo auto explicativo e realista na indústria da moda: os dados do Índice de Transparência na Moda (ITM) do Fashion Revolution Brasil. O Índice tem como objetivo “aumentar a divulgação pública sobre as relações de fornecimento das empresas, bem como suas políticas, compromissos sociais e ambientais, metas, desempenho e progresso em relação à gestão de sua rede de fornecedores”.

A versão mais recente (2020) avaliou as informações divulgadas por trinta empresas em cinco grandes áreas: políticas e compromissos; governança; rastreabilidade; conhecer, comunicar e resolver e tópicos em destaque. Eloísa Artuso, responsável pelo ITM no Brasil, contou em entrevista ao Modefica que existem duas categorias onde as marcas têm maior dificuldade de pontuação: conhecer, comunicar e resolver e tópicos em destaque. “As marcas conseguem falar muito mais sobre suas políticas, valores, do que elas conseguem comunicar o que está sendo monitorado e o que elas estão fazendo, de fato, na prática”, explica.

Os números exemplificam o gap existente atualmente: das trinta marcas analisadas, 16 delas pontuaram no pior nível, entre 0 a 10%, enquanto nenhuma chegou nos três melhores níveis, entre 71 a 100%. Apenas 3 empresas publicam um relatório anual de sustentabilidade ou de responsabilidade social auditado ou verificado por um terceiro independente. Apesar de tais valores, esses números ainda são melhores do que o do ano anterior. As marcas que participaram do ITM tiveram um aumento de 38% na divulgação de informações.

Segundo Leonardo Marques, Coordenador do Centro de Inovação e Sustentabilidade da Coppead, as empresas reconhecem a necessidade de controle e monitoramento dessa rede, mas, ao mesmo tempo, também se auto avaliam com baixo nível de controle em todos eles e assumem que têm um controle muito maior sobre critérios econômicos. “Elas também assumem que não têm quadros qualificados o suficiente para avançar nestes tipos de análises”, afirma. Eloísa ressalta que o índice pode servir como ferramenta de diálogo e pressão frente ao poder público, tendo em vista que a transparência leva a prestação de contas e à responsabilização dos diversos atores ao longo da rede produtiva.

 

4 Formas de fortalecer a rastreabilidade

1. Blockchain

Apesar de termos um mercado no qual processos tecnológicos ainda possuem custo alto e estão fora das práticas diárias das empresas, o blockchain é uma ferramenta que vem se tornando cada vez mais acessível. Você já deve ter visto por aqui o Instituto Alinha, a primeira organização a implementar o blockchain para rastrear roupas e criar uma etiqueta que mostra onde, como e por quem a peça foi produzida. É uma iniciativa não só inédita no Brasil, mas em toda a América Latina. Com foco nas confecções, o instituto promove a visibilidade de costureiras e costureiros, garantindo melhores condições de trabalho, remuneração adequada, assessorando pequenas oficinas de costura para que elas entendam de regulamentação, saúde e segurança do trabalho.

Assim que elas chegam nesse patamar de formalização, a Alinha as conecta com marcas e estilistas que buscam produzir de forma a garantir condições justas de contratação. Trabalhando há quase uma década com oficinas informais, Dariele Santos, fundadora do Instituto Alinha afirma que as condições mais precárias encontradas por ela e sua equipe foram nas oficinas invisibilizadas por um sistema complexo e cheio de intermediadores.

2. Certificações:

Certificações são um passo para um cenário mais transparente. Iniciativas que buscam atestar os fornecedores que utilizam adequadamente os recursos naturais e têm compromisso com a não exploração predatória das florestas, como Forest Stewardship Council® (FSC) e Canopy, são alternativas para garantir a origem e rastreabilidade da matéria-prima. Vale lembrar também da certificação BCI (Better Cotton Initiative), no qual o Brasil se destaca: somos responsáveis por cerca de 30% do algodão BCI mundial, sendo que, na safra 2018/19, mais de 75% das plumas produzidas foram com essa certificação. Apesar da melhoras nas condições trabalhistas conquistadas pelo BCI, como já dissemos em outros momentos, ele também está no topo das culturas que mais consomem agrotóxicos no país, além de serem produzidos em culturas rotativas de soja e milho em altíssima escala, modelo agrário que tanto destrói biomas, vidas humanas e animais.

3. Padronizar Informações

Um parecer importante levantado pelo Índice de Transparência do Fashion Revolution Brasil é que “ as informações compartilhadas pelas grandes marcas e varejistas são muitas vezes superficiais e difíceis de serem encontradas”. As informações públicas sobre a rede de fornecimento destas empresas ficam, frequentemente, escondidas em seus sites, ou hospedadas em sites externos, muitas vezes em um formato difícil de ler e entender, como relatórios longos, de trezentas páginas. Ou, as informações simplesmente não estão disponíveis.

Ainda há falta de padrões consistentes sobre questões sociais e ambientais, ou seja, as empresas apresentam as informações em formatos, linguagens e gráficos que melhor encaixam na sua leitura do cenário. Mesmo consumidores mais conscientes têm dificuldade em entender tais dados. Segundo Eloísa, após participar da pesquisa para o índice, as marcas passam a divulgar melhor essas informações, de maneira mais organizada e mais detalhada, porque muitas vezes elas têm esses dados, mas não sabem como organizá-los.

Como pontuamos no relatório Fios da Moda: Perspectiva Sistêmica Para Circularidade, ao traçar esses pontos de atenção na rastreabilidade, gestores empresariais, estilistas, consumidores todos ganham. Ao entender melhor os impactos das fibras ao longo de todo seu ciclo de vida, eles podem tomar melhores decisões sobre o uso de fibras com menores impactos ou com maior capacidade de circularidade. Do ponto de vista de gestão empresarial, é possível entender onde estão os principais pontos críticos de processo e buscar as melhores práticas de produção e consumo, investindo recursos para fomentar os cenários alternativos.

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4. Legislação

A melhor alternativa para pressionar empresas a investirem na rastreabilidade da sua rede é, claro, por meio da legislação. Não tem como fugir dela, já que por meios legais as mudanças acontecem de forma massiva. Não é uma empresa, ou um produto “ecológico” que conseguirá romper com as problemáticas socioambientais da indústria da moda. É por isso que, desde seu nascimento, o Modefica se posiciona como uma mídia independente que cobre moda e que não acredita na moda sustentável.

É exatamente a falta de instrumentos regulatórios, capazes de nivelar o campo e imputar responsabilidade de forma compartilhada, porém de acordo com tamanho da operação de cada ator, que estimula e incentiva um cenário corporativo sem ferramentas de monitoramento e controle e com práticas risíveis de sustentabilidade. A rastreabilidade poderia, inclusive, estimular a valorização da produção de moda, garantindo renda a um maior número de pessoas, evitando que uma Renda Renascença, feita no interior de Pernambuco, rica em detalhes e importante para a nossa raiz cultural, seja construída em três dias e seja vendida a, no máximo, R$ 50, por exemplo. Como Fábio Almeida, gerente da área de Desenvolvimento Institucional e de Redes do Instituto C&A, disse ao Modefica: “Se o mercado não tem incentivo para promover práticas mais sustentáveis, muito provavelmente as empresas não as adotarão, mas você pode criar instrumentos para garantir, por meio de regulação, que o setor como um todo tenha que se adaptar a um novo ambiente competitivo”.

Criar, promover e incentivar políticas públicas favoráveis à mudança é um assunto por vezes sub pautado na moda, mas, por seu caráter multisetorial e de alto impacto, se torna um espaço de atuação necessário e que não pode ser deixado de fora deste debate.

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