Termômetros da Crise Climática: O Que São os Corais e Por Que Eles São Importantes

Essa é a 3ª parte da série 97,5%: Oceano, Clima e Saúde Coletiva, no qual nos propomos a abordar a Década da Restauração Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, aproximando nossos leitores do oceano, espaço que conhecemos tão pouco e que, apesar de estar distante do imaginário coletivo, é essencial para a saúde de todas as pessoas.

Os recifes de corais são sinônimos de biodiversidade, conectividade e crise climática. Sensíveis a mudanças externas, como o aquecimento das águas ou invasão de espécies estranhas, eles tendem a perder sua cor, um indício de que algo está errado. O branqueamento dos corais tende a ser mais frequente nos próximos anos, é o que estudos apontam ao medir os impactos das mudanças climáticas sobre o oceano. Esse fenômeno já atinge o Brasil com mais impacto, apesar da crença que os corais brasileiros são mais resistentes. Com a ameaça da 17ª rodada do leilão dos blocos de petróleo e gás em regiões estratégicas para o ecossistema marinho, se faz necessário observar os rumos da política brasileira e cobrar pelas ações já assinadas no Acordo de Paris.

Os recifes de corais roubam a atenção pelas suas cores e beleza, mas o que exatamente são os recifes de corais e sua real importância para a biota marinha são questões pouco difundidas. A começar pela definição: eles são animais, não vegetais, como sua aparência sugere. São relacionados à biodiversidade e conectividade ecológica porque abrigam um número significativo de animais e vegetais em suas estruturas. Ao todo, eles cobrem uma área oceânica de 0,1%, mas concentram cerca de 25% da vida marinha. Outro ponto que torna os recifes extremamente importantes é o fato de que muitas espécies que convivem no seu meio são consideradas em risco de extinção e endêmicas [1].

Uma pesquisa publicada em 2018 dá ao Brasil o título de Província Biogeográfica [2] por possuir 111 espécies de peixes endêmicos vivendo sob os recifes brasileiros. A maioria desses peixes estão concentrados na costa central brasileira, em especial entre a Bahia e Espírito Santo – onde se encontra o Banco de Abrolhos, a região com maior cobertura recifal do Brasil. Apesar da incidência considerável nessa área, os corais estão presentes em toda a costa, de Norte a Sul, e eles fazem um alerta ao país que se comprometeu a neutralizar suas emissões de gases do efeito estufa (GEEs) até 2050: talvez eles não estejam vivos até lá.

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Em 2016, 2019 e 2020, o Brasil sofreu ondas de branqueamento mais quentes e duradouras, o que invalida a crença de que nossas espécies são “mais resistentes”. Com a letalidade subindo de proporção, toda a saúde desse ambiente marinho diverso também é posta em cheque.
 

As consequências da crise climática

A crise climática atinge os oceanos de diversas formas, não só pela elevação da temperatura das águas, mas também com a diminuição do oxigênio, o que aumenta sua acidificação. O desequilíbrio do bem-estar coletivo pode atingir, e matar, recifes de corais e proporcionar a invasão e proliferação de espécies que antes não residiam no local, como as algas. Estamos acostumados a ver na mídia os danos da crise climática na Grande Barreira de Corais, na Austrália, ou no Caribe, mas por aqui nossas espécies também sofrem com as alterações humanas.

A peculiaridade dos corais brasileiros, que os confere o título errôneo de “resistentes”, não está na sua forma, mas sim no ambiente em que eles estão dispostos. Graças aos sedimentos trazidos pelos rios que desaguam no mar, as águas desses habitats se tornam mais turvas, servindo de filtro e isolamento térmico contra a radiação solar e o aquecimento das águas. Esse fator também auxilia o animal a se recuperar com mais facilidade dos eventos de branqueamento.

Os corais são relacionados à biodiversidade e conectividade ecológica porque abrigam um número significativo de animais e vegetais em suas estruturas. Ao todo, eles cobrem uma área oceânica de 0,1%, mas concentram cerca de 25% da vida marinha

É importante notar que o branqueamento dos corais, quando prolongado e intenso, não é reverso, mas, em certas situações, quando o efeito não é tão forte, o animal consegue recuperar sua cor – ou, na verdade, recuperar as algas que dão cores à sua forma. Os corais são animais que vivem em concomitância com as algas fotossintetizantes zooxantelas. Eles fornecem casa enquanto elas fornecem a cor.

Quando a temperatura aumenta, o metabolismo das algas acelera e elas se tornam tóxicas para o animal. O coral, então, as expulsa. Sem o alimento fornecido por elas, ele fica debilitado e morre. Apesar do branqueamento ser um fenômeno natural, ele devia acontecer em uma média de 35 anos, mas com as alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global, ele tem ocorrido de 3 a 6 anos.

Um estudo publicado na revista científica Frontiers In Marine Science, em 2020, levantou o número de eventos de branqueamento de corais com mortalidade no Brasil nos últimos 40 anos. Os números confirmam a tendência de resistência: as mortes dos corais brasileiros foram 50% e 60% menores do que no Caribe e Indo-pacífico, respectivamente. Mas, a frequência e número de tais eventos cresceu nas últimas décadas. Em 2016, mais de 70% das colônias de coral monitoradas pelos pesquisadores no Banco de Abrolhos sofreram branqueamento. A mortalidade foi de apenas 3% mas, em 2019, uma nova onda se abateu sobre a costa brasileira.

Apesar do branqueamento ser um fenômeno natural, ele devia acontecer em uma média de 35 anos, mas com as alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global, ele tem ocorrido de 3 a 6 anos

Mais forte que a anterior, ela causou danos mais profundos: a espécie Millepora, em Abrolhos, considerada sensível ao aquecimento das águas, apresentou em mais de 50% da sua colônia sinais graves de mortalidade. Já a espécie Coral-Cérebro, que não apresentou nenhuma morte em 2016, viu esse índice subir para 5% em 2019. Os valores parecem pequenos, mas estamos falando de eventos que estão acontecendo em um espaço de tempo inferior a 3 anos.

Em 2020, uma outra onda de branqueamento tomou a costa brasileira – o fenômeno atingiu do norte da Bahia ao Rio Grande do Norte, tomando áreas de destinos turísticos famosos, como Maragogi, em Alagoas, e Fernando de Noronha, em Pernambuco. A temperatura da água no primeiro trimestre do ano estava a 2ºC acima do esperado, chegando a 30ºC. Essa foi a maior temperatura já medida nos últimos 35 anos. A Noaa, agência de oceanos e atmosfera dos EUA, chegou a emitir o alerta de nível 2 de branqueamento, o maior na escala. “[Antes] eram branqueamentos mais localizados, o impacto não era tão grande. Ano passado, vimos um impacto muito maior”, afirma a bióloga e pesquisadora Jéssica Bleuel, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Jéssica é uma das autoras do estudo previamente mencionado, e publicado recentemente na Scientific Reports, sobre as ações da crise climática sob os recifes de corais. O artigo aponta as regiões de corais que devem ser mais atingidas nas próximas décadas e como o aquecimento das águas deve tornar os litorais do Sudeste e Sul mais adequados para esses animais. Outro ponto de destaque são as áreas pouco vulneráveis, que sofrerão redução de 50% até 2050.
 

Rumos (errados) tomados pelo governo brasileiro

Apesar da quantidade de conteúdo acadêmico relevante para direcionar as políticas públicas brasileiras para a rotas de conservação, vemos exatamente o oposto acontecendo. Os atuais interesses econômicos do Governo Bolsonaro geram ameaças para a Reserva Biológica do Atol de Rocas, em Abrolhos, o Parque Nacional de Fernando de Noronha e a foz do rio Amazonas. Apesar do parecer negativo do ICMBio frente à exploração de petróleo e gás em áreas tão importantes para a biodiversidade marinha, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) desconsiderou a nota técnica e segue com a 17ª rodada de leilão dos blocos para outubro.

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Em junho, a Justiça Federal atendeu o pedido do Instituto Arayara e excluiu blocos da Bacia de Pelotas, no litoral catarinense, da 17ª Rodada da ANP. Graças à pressão da instituição, foi retirado uma área do total de 15 mil km² (três cidades de Brasília), até que haja a elaboração das Avaliações Ambientais de Áreas Sedimentares (AAAS). Os riscos da extração de petróleo e gás nas proximidades dos recifes de corais acende uma luz vermelha, pois o que ambientalistas têm apontado é que não existe simulação em casos de acidentes durante a exploração de petróleo.

Tendo em vista que o Brasil possuía um plano de contingência para incidentes de poluição por óleo em águas desde 2013, e esse plano foi ignorado no episódio de vazamento do Óleo no Nordeste, nos perguntamos quanto essa simulação realmente protegeria os recifes de corais próximos às áreas exploradas.

A dedicação na venda dos 92 blocos para extração de óleo e gás reafirma que os interesses do Governo brasileiro estão longe do compromisso climático de desaceleração das emissões de GEEs. Enquanto vemos iniciativas privadas para “salvar” os recifes de corais – entre elas o congelamento de sêmem de corais e a inserção de blocos de concreto no ambiente marinho para simular a estrutura desses animais para abrigar outros seres marinhos,  ambientalistas e pesquisadores sempre ressaltam o papel das políticas públicas como primordial.
 


 
A principal delas, em nível global, é a redução das emissões de carbono, as responsáveis pelo aumento da temperatura terrestre e marinha, tendo em vista que a segunda absorve mais o calor do que a primeira. Em nível local, a primeira política pública que se deve olhar, segundo Jéssica, é para as Áreas de Proteção Ambiental (APAs). “Tem um trabalho publicado na Science que mostra que nos lugares que são áreas marinhas protegidas, os corais são menos afetados ou conseguem se recuperar melhor”, explica, “então, caso haja um branqueamento, esses lugares mais saudáveis conseguem ajudar na recuperação”.

A proteção dessas áreas está intimamente ligada à melhora nas formas de fiscalização e a criação de novas áreas em regiões de grande importância. “No nosso trabalho, vimos que as áreas mais ao Sul do Brasil têm possibilidade de se tornarem novos habitats para outros corais. Seria interessante implementar áreas de proteção nesta região”, reforça. Jéssica também acredita que o ideal seria criar outras APAs que liguem as áreas mais propícias aos corais, atualmente, como a Bahia, a futuras áreas ao Sul. Além disso, a especialista também destaca a redução da sobrepesca, evitar o turismo desordenado e a poluição – seja por lixo ou óleo.

No campo individual, Jessica nomeia a redução do consumo de carne e do consumo exacerbado e a preferência por produtos locais. “Um produto que você pede pela internet e vem da China, ele tem que atravessar o oceano para chegar até você”, afirma. A bióloga aponta que as medidas de curto e médio prazo vão refletir nas de longo prazo.

As projeções mostram por quê é necessário olhar para o cenário atual e agir agora: segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em um cenário de aumento da temperatura terrestre em 1.5ºC, a morte massiva de corais tropicais será inevitável: estimam-se perdas entre 70% a 90%. Pensando em um cenário de 2ºC, esse valor subirá para 99%. Por hora, chegamos ao 1ºC. “Os corais agregam organismos vivos ali, oferecem casas para diversos deles, alguns até se alimentam nesse espaço”, relembra Jéssica, “Se perdemos os corais estamos perdendo tudo que eles agregam no ambiente recifal, peixes, crustáceos, perdemos todas as interações que acontecem ali”.

Nas próximas matérias da série 97,5%: Oceano, Clima e Saúde Coletiva abordaremos as condições da poluição humana no mar do estado de São Paulo, como o capitalismo verde age no oceano, as alterações na vida de mulheres ribeirinhas frente à poluição oceânica e possibilidades e oportunidades do turismo ecológico.

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