Tudo Menos Sustentável: a Seca e Desequilíbrio Ambiental Causadas Pelo Agronegócio

Em março de 2021, a empresa SLC Agrícola, a maior empresa agrícola brasileira, divulgou seu relatório de informações financeiras e operacionais referentes à 2020, revelando que, pela primeira vez, seu lucro líquido fechou em R$ 3 bilhões. Com um portfólio de terras de 468 mil hectares, a empresa recebeu 1º lugar em sustentabilidade pela ESG Metrics e o Troféu Transparência 2020 no 24º Prêmio ANEFAC – FIPECAFI [1].

Ao mesmo tempo, as 16 fazendas controladas pela SLC Agrícola estão concentradas no Cerrado, bioma que passa por forte desmatamento e ressecamentos do aquíferos que nutrem rios, planícies e demais biomas brasileiros. Com alterações climáticas, diminuição da evapotranspiração, enfraquecimento da conectividade biológica, trazemos uma análise sobre o que é tido como sustentável sob o guarda-chuva de grandes empresas de commodities e seus verdadeiros impactos já presente no dia a dia de todos.

Em 2020, a SLC Agrícola captou sua primeira emissão em títulos verdes [2], no valor de R$ 480 milhões. Os títulos possuem vencimento em 2025 e serão aplicados em programas de Agricultura Digital, Baixo Carbono e Conservação do Solo e Adubação Verde. O mercado de títulos verdes é promissor no Brasil – ainda pouco explorado, mas com potencial de investimento em torno de US$ 163 bilhões (R$ 830 bilhões). Os títulos verdes já estão na mira de grandes empresas com passivo ambiental, como a Suzano Papel Celulose que, em 2020, recebeu R$ 1 bilhão via tal financiamento.

Apesar de todas as chancelas de sustentabilidade dadas à SLC Agrícola, o nome da empresa é citado com frequência em relatórios de desmatamento apontando irregularidades nas áreas de suas fazendas – dispostas nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Piauí. Em diversos relatórios, a coalizão Chain Reaction Research (CRR) apontou que a empresa passou por um longo processo de compras de terras, expandindo suas propriedades na região de fronteira agrícola do Matopiba e, com isso, desmatando a região para a atividade agrícola (soja, milho, algodão). Segundo a CRR, a SLC Agrícola derrubou mais de 30 mil hectares de vegetação nativa no Cerrado entre 2011 e 2017, tamanho aproximado de Belo Horizonte. Já em outro documento, a organização aponta que, apesar do compromisso de desmatamento zero, a empresa desmatou, somente no primeiro trimestre de 2020, 5,2 mil hectares de vegetação nativa.

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Enquanto isso, Crispin Odey, fundador da Odey Asset Management, gestora britânica e segunda maior acionista da SLC, com 9,7% do capital, em entrevista ao Financial Times se referiu às multas do Ibama como multas de estacionamento, fazendo uma infeliz comparação com os valores que são cobrados aos atos ilegais da SLC Agrícola e o faturamento anual da empresa. É importante frisar também que o Código Florestal exige apenas a preservação de 20% da vegetação nativa das terras particulares no Cerrado – valor bem longe dos 80% da Amazônia. A falta de fiscalização e cumprimento da lei, junto ao desamparo legal, resulta nos diversos cenários que exploramos a seguir.

 

A falta que a água faz

As alterações ambientais no Cerrado e Pantanal são provocadas por dois fatos que, em concomitância, resultam no agravamento da seca: a retirada da cobertura vegetal original e a diminuição da água nos rios subterrâneos. Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e especialista no bioma Cerrado, afirma que a vegetação tem um papel central no regime de chuvas. “A cobertura vegetal faz a interface entre o transporte da água no solo e a atmosfera. Quando você modifica essa cobertura, você está mexendo nesse componente do ciclo hidrológico”, explica. Ela aponta que as características da vegetação, como tipo de folha e profundidade do sistema radicular, interferem na movimentação de água nos ecossistemas e no armazenamento da mesma no solo.

Quanto à proteção de 20% do Cerrado, Mercedes exemplifica porquê não é suficiente para garantir a saúde ambiental da região como um todo: “você pode até ter uma área protegida dentro da sua propriedade, mas se a conversão (vegetal da região) já passou de determinado limiar, ela pode ser suficiente para alterar padrões de precipitação e aumentar a temperatura superficial”. Tal situação pode ser observada na Caatinga, que possui regiões pouco alteradas pela atividade humana, mas que sofrem uma devastação crônica.

Crispin Odey, fundador da Odey Asset Management, gestora britânica e segunda maior acionista da SLC, com 9,7% do capital se referiu às multas do Ibama como multas de estacionamento, fazendo uma infeliz comparação com os valores que são cobrados aos atos ilegais da SLC Agrícola e o faturamento anual da empresa

Com o aumento da temperatura, outro sistema de equilíbrio ambiental sofre alterações: a evapotranspiração [3]. Esse mecanismo é fundamental em áreas mais secas, pois o orvalho produzido à noite fornece água à vegetação. Se a noite está quente, o orvalho não será produzido e será uma fonte a menos de água para uma vegetação já sujeita a um clima muito seco. A temperatura mais quente força a planta a gastar mais energia com a transpiração e diminui sua produtividade. “Isso tem consequência para o início do período chuvoso no Cerrado”, afirma Mercedes. Essa alteração na época de chegada das chuvas foi citada cinco vezes no relatório da SLC Agrícola, junto com os números de produtividade do algodão e demais grãos.

Segundo o relatório, “a safra 2020/21, começou um pouco atrasada, com chuvas abaixo da média, principalmente para a região do oeste do Mato Grosso”. Por conta disso, o plantio de soja foi postergado e, consequentemente, houve redução da janela de plantio do algodão e milho de segunda-safra. A seca também atrapalhou o plantio de soja no Maranhão, que apresentou queda de 2,1% frente à safra anterior. Em outros trechos, o documento cita, em geral, o atraso das chuvas na região Centro-Oeste.

Outro ponto de atenção está relacionado aos rios subterrâneos. Em dezembro de 2020, uma reportagem do site Mongabay apontou que o Cerrado baiano perdeu quase 2 bilhões de litros de água por dia para o agronegócio na pandemia. Uma pesquisa feita pelo Ministério Público baiano aponta para a diminuição de 15% das vazões dos rios Arrojado e do Corrente, entre 1997 e 2007, na região de Correntina e adjacências.

Segundo Luciana Khoury, promotora do MP baiano, o extremo oeste da Bahia precisa urgentemente da criação de um plano de gestão das águas. O estudo realizado pelo órgão mostra que “fica perceptível o quanto as fazendas irrigadas são as grandes responsáveis pelos impactos na dinâmica dos rios”. Uma delas, a SLC Agrícola, está autorizada a captar mais de 37 milhões de litros diariamente na bacia do Rio Grande para a irrigação da fazenda Palmares I, que também fica na região.

A diminuição da quantidade de água dos rios subterrâneos também deve ser observada como agravante da seca no Cerrado. Uma degradação que ocorre longe dos nossos olhos, mas que acontece há 40 anos – junto com a chegada das grandes monoculturas no bioma. Paulo Rogério, integrante da coordenação executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e técnico da ONG Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), explica esse fenômeno no leste do Tocantins: “tem um grande aquífero, o Urucuia, que fica debaixo daquele grande plantio de soja do oeste da Bahia. O que a gente sabe hoje é que aquele aquífero já perdeu 70% do seu potencial de carga”.

Paulo destaca que, ao desmatar a vegetação nativa, o agronegócio destrói a estrutura dos solos e impossibilita que as águas desçam para os aquíferos e os recarreguem. E a água que não desce, vai para onde? Ela escorre nas enchentes. Essa alteração também está mudando as nascentes dos rios, em um efeito chamado “migração das nascentes”. Paulo exemplifica com o caso do rio São Francisco: “a nascente desceu mais um metro, porque o aquífero que abastecia está a um metro abaixo. Com a expansão do agronegócio e do desmatamento, temos cada vez menos água disponível nos rios e nas minas”.

Os impactos no Cerrado se transmitem para demais regiões – tendo em vista que o bioma é responsável por abastecer 40% da água doce do Brasil. Mercedes cita o caso da bacia hidrográfica do Paraná, cujo volume de água está bem alterado hoje e tem uma contribuição importante do Cerrado: “você já não pode negligenciar o papel que essas transformações em larga escala no Cerrado têm para o provimento de água para várias regiões do Brasil”.

 

O Acúmulo de Terra

Segundo o relatório da SLC Agrícola, a combinação de negócios com a Terra Santo Agro S.A. – também produtora de soja, milho e algodão -, em 2020, abriu um potencial de incremento de aproximadamente 130 mil hectares à área de plantio da companhia (4 cidades de Belo Horizonte). Já o De Olho nos Ruralistas aponta que, juntas, as empresas somam quase 600 mil hectares no Cerrado, uma área maior que o Distrito Federal.

Frente a estes números, Paulo abre o questionamento: quem vivia em todas essas áreas que se expandiram? “Lá são lares de comunidades, de populações tradicionais, de povos indígenas, de quilombolas, que estão sendo invadidas no dia a dia”, afirma. O especialista conta que acompanha as comunidades quilombolas no Tocantins, que se somam em cinquenta, e que todas estão invadidas pelo agronegócio. “Quanto invadidas? 70%, 80% das áreas”, explica, “boas partes são áreas públicas que estão na posse dessas comunidades desde 1700, 1800”.

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A entrada destas atividades na região também tende a alavancar o êxodo rural – seja pela seca, pelo desequilíbrio ambiental, pelo conflito de terra ou pelo fato de que a agricultura em larga escala é altamente mecanizada. “Essas famílias que estão sendo expulsas vão para a periferia das cidades”, reforça Paulo. A mecanização do campo e a falta de empregos aparece no relatório da SLC Agrícola, no qual a empresa relata que emprega 2.723 colaboradores efetivos.

Se fizermos um paralelo com a agricultura familiar, que emprega 200 pessoas a cada 500 hectares, e contarmos apenas a área plantada da empresa, ou seja, 468 mil hectares, haveria um aumento de 98,6% de empregos na região. Ou seja, essa área tem capacidade de empregar cerca de 187 mil agricultores familiares.
 

Tudo, menos sustentável

Ainda olhando para os empregos dispostos pela empresa, a SLC Agrícola afirma que possui safristas em suas fazendas cujo número “varia ao longo do ano” e que “em 2020, essa média foi de 1.025 pessoas, estável em comparação aos 1.021 de 2019”. Ou seja, 1/3 da mão de obra da empresa trabalha de forma sazonal. Apesar de afirmar a segurança dessas contratações, sabemos de longa data que por serem menos protegidas pela lei, elas podem dar margem para cenários de precarização do trabalho. A empresa também expõe sua atuação “para a cooperação no combate à pandemia do coronavírus”, com doações que totalizaram R$ 1,6 milhões. Mas comparando com sua receita líquida – R$ 3 bilhões – isso equivale a apenas 0.05% do montante. Em uma rápida comparação, seria o equivalente a um trabalhador que recebe um salário mínimo (R$ 1.100) doasse 0.55 centavos para a pandemia da Covid-19.
 

 
O modelo atual de produção do agronegócio é tudo, menos sustentável. “Para funcionar, eles precisam ter áreas enormes. Esse tipo de desenho, com áreas muito extensas, convertidas e pouca taxa de vegetação protegida é que gera esse impacto na escala da paisagem”, reforça Mercedes. Segundo a especialista, o modelo da imagem clássica de diversas colheitadeiras entrando na plantação é um modelo fadado ao fracasso justamente pelas consequências que ele provoca.

Porém, a expansão do agronegócio segue sem pensar muito no futuro. Nos custos de produção orçados na safra 2020/2021 da SLC Agrícola, entre os custos variáveis [4], enquanto a mão-de-obra representa 0,9% do custo da produção de algodão, fertilizantes e defensivos agrícolas representaram, respectivamente, 21,3% e 28,6% do custo total. Já nos gastos fixos, a mão-de-obra representa, apenas, 7,3%.

“Quando eu desmato 5 mil hectares e planto soja, eu estou forçando ali uma pressão para que os insetos que comem a soja se reproduzem”, explica Paulo, “e o que se usa numa situação dessa? Um monte de agrotóxico. No fundo, a estratégia da monocultura em grande escala é totalmente anti-ecológica”. Paulo reforça sua fala apontando que, quanto mais aumenta a supersafra de produção, mais aumenta a fome no Brasil.

Para Paulo, a única saída possível é a agricultura familiar. “Quando eu manejo uma área menor, eu tenho condições de cuidar no dia-a-dia. Quando eu manejo uma área enorme, é tudo no preventivo. Não tem como fazer uma produção de matéria orgânica para 5 mil hectares”. Mercedes completa que com o sistema ambiental debilitado, a manifestação de eventos extremos, como El Niño, cuja maior frequência tem sido notada no meio acadêmico e está ligada à crise climática, acentua a seca e outras alterações ambientais. “Fazendo uma analogia com nosso organismo, você está com seu sistema imune debilitado, porque você tem menos cobertura vegetal que te permitiria ter mais resiliência para o sistema responder a esses eventos extremos”, afirma, “você não está falando de modelagem, está falando de dados que já estão acontecendo. Você precisa ter uma reestruturação de um modelo que te permita ter uma paisagem de produção mais diversificada”.

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