Eco-Ansiedade e Solastalgia: Como a Crise Climática Afeta a Saúde Mental

Crise Climática e Saúde Mental é a série de matérias do Modefica para o Setembro Amarelo. Acompanhe durante esse mês as ações destinadas a tratar de como as alterações climáticas influenciam nas questões de saúde mental das pessoas, o que tem sido feito acerca do problema e o que ainda precisa ser feito para lidar com a questão.

Você já sentiu ansiedade ao ver uma notícia relacionada à crise climática? Talvez ela tenha te feito mudar de canal, fechar uma aba, buscar alguma distração. Essa característica de incômodo, ansiedade, palpitação ao se sentir à espera de um perigo iminente, ou incapaz de mudar a situação, é muito comum nos casos de eco-ansiedade e solastalgia. Os termos, utilizados nos campos da psicologia e filosofia, estão se espalhando pela mídia, mas precisam chegar ao consenso social e nas políticas públicas.

Segundo um artigo publicado na revista Lancet, em 2020, o grau de angústia que uma pessoa sente a respeito da crise climática está frequentemente relacionado ao quão diretamente seu ambiente é alterado ou ameaçado. O texto aponta que “em países atingidos por desastres, é provável que vejamos aumentos no sofrimento mental e a capacidade de recuperação será determinada por esforços que promovam a resiliência”. Mas, mesmo em países que ainda não estão sendo atingidos por eventos climáticos extremos, essa sensação pode chegar a seus moradores e ativistas, caso eles sejam sensíveis à pauta. Por isso, é importante entender a diferença entre eco-ansiedade e solastalgia.

A eco-ansiedade, descrita pela primeira vez em 2017 pela professora de psicologia e estudos ambientais Susan Clayton, é caracterizada por preocupações graves e debilitantes sobre os riscos climáticos e ambientais e pode provocar reações como perda de apetite, insônia e ataques de pânico. Já a solastalgia não é considerada uma doença. O termo foi cunhado pelo filósofo australiano Glenn Albrecht em 2007 e define um conjunto de distúrbios psicológicos que ocorrem com grupos que vêm seus territórios atingidos por ações extremas, sejam de atividades humanas ou climáticas. Estão como exemplos brasileiros recentes o caso de Mariana, em Minas Gerais, e Maceió, em Alagoas – ambos ocasionados por empresas multinacionais.

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De acordo com um artigo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), de 2018, os sobreviventes do furacão Katrina, que atingiu a costa leste americana em 2005, têm 4% mais chances de sofrer de doenças mentais, além de quadros de estresse pós-traumático. Já o artigo da Lancet aponta que as populações Inuites, no Canadá, vivem mudanças rápidas no clima e meio ambiente e que, historicamente, sofrem uma disparidade de saúde mental, em comparação com a população não-indígena, devido às consequências da colonização. Essa condição se traduz em números: a taxa de suicídio da população Inuite é 11 vezes maior que a média canadense.

No Brasil, uma pesquisa de 2014 desenvolvida na comunidade rural da Canafístula, distrito do Município de Apuiarés, localizado a 134,6 quilômetros da Capital cearense, mostrou a prevalência de transtornos mentais comuns em 36% das pessoas, estimativa um pouco maior do que a dos estudos realizados no Brasil. Os dados se justificam: a região é atingida pela seca. A proporção segundo o sexo foi de maior prevalência em mulheres.

A ansiedade proveniente da crise climática pode gerar diversas reações e cenários. Desde negação e descredibilidade, até a crença que não existe outra forma social de produzir e consumir além das que praticamos atualmente. O artigo da Lancet relaciona 29 barreiras psicológicas agrupadas em sete categorias:

 
Vulnerabilidade e responsabilidade

Os países desenvolvidos do Norte são historicamente responsáveis pelas mudanças climáticas, mas enfrentam o menor risco dos efeitos extremos, como vemos acontecendo com a descaracterização da vegetação nativa na Amazônia e Cerrado brasileiros, por conta do agronegócio. As commodities são exportadas, principalmente, para países europeus, China e Estados Unidos, causando seca, alteração no regime de chuvas, enquanto os agrotóxicos vendidos pelos mesmos países contaminam rios, solo e a população local. É o que a pesquisadora Larissa Bombardi chama de colonialismo molecular.

A população de países do Sul enfrentam realidades que as põem em condição de vulnerabilidade frente à crise climática, como o baixo status socioeconômico, moradia precária, insegurança alimentar, pouco ou nenhum acesso a serviços de saúde. Logo, a saúde mental é deixada de lado para problemas mais “materiais” como a alimentação e moradia. Por não serem visíveis, os problemas de saúde mental relacionados à crise climática tomam menos a atenção de estudos, governos e agências internacionais, mídia e sociedade.

Mas eles estão aí. Para tornar a eco-ansiedade e solastalgia termos conhecidos, o primeiro passo é fortalecê-los no campo da pesquisa e estendê-los a debates sociais e a políticas públicas. Essa tendência não só beneficia a sociedade como um todo, tendo em vista que passaremos a falar mais sobre saúde mental, que por si só é esquecida quando relacionada ao bem-estar social -, mas também trará resiliência e resposta de adaptação mais rápida para as populações mais vulneráveis e menos responsáveis pelas alterações do clima.

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